Para o marido, um arquiteto pragmático que a amava com uma calma entediante, ela inventou a desculpa perfeita: "Preciso de isolamento total para o clímax do livro, querido. Vou para um retiro literário no interior de Minas, sem sinal de celular, sem distrações. Apenas eu e a máquina." Ele a beijou na testa, orgulhoso de sua dedicação, sem imaginar que o "clímax" que ela buscava não seria datilografado, mas sentido na carne.
Sua última protagonista, Larissa, não era apenas tinta no papel. Era uma parasita. Quanto mais Clara escrevia sobre a entrega total e a degradação de Larissa, mais sentia que sua própria vida era pálida. O plano levou semanas. Ela não queria apenas pesquisar; queria transmutar. Ela desejava, com uma fome que a assustava, viver aquela mesma sujeira, sentir o óleo cru manchar sua pele imaculada e ter sua dignidade pisoteada por mãos que nunca tocaram um livro.
Capítulo I: A Travessia da Vergonha
A viagem do Rio até o interior foi um rito de passagem. Clara dirigia seu SUV de luxo, as mãos firmes no volante enquanto observava o movimento da estrada diminuir. Cada carro que passava em sentido contrário, cada farol que cruzava seu caminho, era um lembrete do risco: se alguém a reconhecesse, se houvesse um acidente, sua carreira e seu casamento virariam cinzas. Mas o perigo era o verdadeiro lubrificante de sua mente.
Ela dobrou em uma estrada de terra lateral, escondendo o carro atrás de uma vegetação densa, onde o brilho do sol poente não alcançava. O silêncio que se seguiu ao desligar o motor foi ensurdecedor, quebrado apenas pelo estalar do metal quente do motor esfriando.
A Desconstrução de Clara
Dentro do carro, Clara iniciou o ritual de despojamento. O espaço confinado do SUV parecia subitamente pequeno demais. Ela retirou a aliança de ouro, sentindo o peso da traição como um soco no estômago, e a guardou no porta-luvas — o túmulo de sua lealdade.
Suas mãos, levemente trêmulas, subiram até o zíper do vestido de seda esmeralda. O som do zíper descendo soou como um trovão no silêncio da mata. O tecido deslizou pelos ombros como uma carícia fria, revelando a pele alva e os ombros delicados. Ela se contorceu no banco de couro para deslizar o vestido pelos quadris, uma luta desajeitada que a deixava ofegante. Em seguida, desfez-se da lingerie de renda francesa, peça por peça. O sutiã caiu no banco do passageiro, revelando seios firmes e fartos para sua estrutura delicada, com aréolas rosadas que se arrepiaram imediatamente com o choque térmico do ar que entrava pelas frestas. Por fim, a calcinha de seda foi removida, deixando-a completamente vulnerável, o sexo exposto ao couro frio do assento.
A sensação de estar nua ali, onde qualquer caminhoneiro ou morador local poderia aparecer e flagrá-la, era uma mistura de pânico e êxtase. Nada garantia que os homens na oficina seriam como os de sua ficção; eles poderiam ser violentos, poderiam entregá-la à polícia, ou simplesmente rir dela. O risco de ruína total estava a apenas alguns metros de distância.
Antes de abrir a porta, ela puxou o espelho interno. Olhou profundamente nos próprios olhos dilatados e começou a sussurrar, primeiro com a voz falha, depois com uma firmeza doentia: — Você não é mais Clara. Você é Larissa. Clara ficou no Rio. Aqui, você é Larissa. Você é Larissa. Ela repetiu o nome da personagem como um mantra, uma oração profana, até que a escritora fosse silenciada e apenas a mulher sedenta restasse.
O Caminho de Terra
Ela abriu a porta do carro. O ar frio da montanha lambeu cada centímetro de sua nudez. Clara sentiu a grama seca e os cascalhos ferirem levemente a sola de seus pés.
A caminhada de cinquenta metros até a oficina foi o momento mais longo de sua vida. A cada passo, seus seios balançavam levemente, e ela sentia o roçar de suas coxas, uma sensação de liberdade e exposição que a fazia tremer. Sua pele branca brilhava contra o verde escuro da vegetação como uma ferida aberta. Ela caminhava com uma lentidão deliberada, sentindo o suor frio escorrer entre os seios e a umidade involuntária surgindo entre as coxas, um sinal de que seu corpo já havia aceitado o destino que sua mente planejou.
Ela parou na sombra da última árvore antes do pátio iluminado. Dois homens estavam lá dentro. O som das ferramentas batendo no metal ecoava como batidas de tambor. Eles eram brutos, suados, com os macacões manchados de óleo — exatamente como ela os descrevera em suas fantasias mais sombrias.
Clara respirou fundo, sentindo o cheiro de diesel e terra. A partir daquele momento, ela era Larissa. Com o coração martelando no pescoço, ela deu o passo final para fora da escuridão, caminhando em direção à luz amarela da entrada, oferecendo sua pele alva e sua dignidade ao altar de aço e óleo dos dois desconhecidos.
O limiar entre a luz amarela da oficina e a escuridão da estrada de terra era a fronteira final da sanidade de Clara. Ao parar sob o batente da porta de metal corrediça, o cheiro de graxa pesada e querosene a atingiu como um soco. O medo era uma massa gélida no seu estômago; ela sabia que, ao dar o próximo passo, o "cancelar" da vida real deixaria de existir. Não havia botão de emergência.
Os dois homens não a viram de imediato. Um deles, mais jovem e de costas, martelava algo em uma bancada; o outro, mais velho, com o rosto marcado por sulcos de cansaço e fuligem, estava debruçado sobre o motor de um caminhão antigo.
Clara deu o passo. O cascalho estalou sob seus pés descalços.
— Boa noite... — a voz dela saiu baixa, trêmula, mas carregada de uma vibração que fez os dois homens pararem no mesmo instante.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo estalo do metal esfriando. O mecânico mais velho ergueu o corpo lentamente, limpando as mãos em um pano imundo que pendia do bolso do macacão. Seus olhos percorreram o corpo de Clara — dos cabelos negros impecáveis aos seios brancos que subiam e desciam com a respiração curta, descendo pelo ventre liso até o sexo exposto.
— Mas que porra é essa? — o mais jovem murmurou, soltando o martelo, que bateu no chão com um som surdo. — De onde você saiu, mulher?
Clara sentiu o rosto queimar. A vergonha era uma chama, mas as palavras de Larissa já estavam na ponta de sua língua, prontas para serem vomitadas.
— Eu vim porque soube que aqui vocês sabem como lidar com máquinas pesadas — ela disse, a voz ganhando uma firmeza doentia, repetindo o diálogo da página 15. — E eu estou sentindo que minhas peças estão precisando de um ajuste bruto. De óleo... e de carne.
Os dois homens se olharam. O choque inicial nos rostos deles começou a transmutar para algo mais escuro, um desejo animal que não tinha tempo para perguntas.
— Você tá de brincadeira, né? — o mais velho deu um passo à frente, o cheiro de suor e óleo vindo dele em ondas. — Você entra aqui, pelada, falando essa sujeira? Sabe o que a gente faz com quem entra assim na nossa oficina?
— Eu sei exatamente o que vocês fazem — Clara rebateu, sentindo um tesão violento latejar entre as coxas ao ver o volume crescendo no macacão dele. — Vocês usam. Vocês sujam. E eu não saio daqui enquanto não estiver coberta da graxa de vocês.
O mais velho não esperou. Ele a agarrou pelo braço com uma força que faria a Clara do Rio de Janeiro gritar, mas que fez a Larissa de Minas suspirar. Ele a empurrou contra o capô de metal frio do caminhão.
— Então se ajoelha, boneca — ele ordenou, abrindo o zíper do macacão com uma mão só. — Vamos ver se essa boca de madame é tão boa quanto as palavras.
Clara caiu de joelhos no concreto frio. Ela viu o membro dele, escuro e pulsante, saltar para fora. Sem hesitar, ela o envolveu com as mãos, sentindo a textura áspera da pele dele contra a sua delicadeza. Quando o levou à boca, o gosto de sal e masculinidade bruta a inundou. O outro mecânico, o mais jovem, aproximou-se por trás, agarrando seus cabelos negros e forçando a cabeça dela para frente.
— Isso... engole tudo, sua vadia — o jovem rosnou, enquanto ele mesmo se libertava e guiava o próprio membro para o rosto dela, esfregando-o em suas bochechas pálidas. — Olha só essa pele... parece seda. Vai ficar toda marcada por nós.
Clara gemia entre as bocadas, o som abafado pela carne dele. Ela via as mãos negras de óleo apertando seus seios, deixando impressões digitais de graxa sobre a pele alva. A humilhação era completa; ela era um objeto, uma ferramenta naquelas mãos.
— Chega de boca — o mais velho disse, puxando-a para cima com um solavanco e virando-a de costas contra o caminhão. — Quero ver se você aguenta o tranco de verdade.
Ele a dobrou sobre o metal, abrindo suas pernas com os joelhos. Clara sentiu o contato do metal gélido contra seu ventre enquanto o mecânico entrava nela com uma estocada seca e violenta. Ela soltou um grito que ecoou pelo galpão, uma mistura de dor aguda e um prazer que nunca sentira com o marido.
— Você é apertada demais pra ser tão oferecida! — ele exclamou, o ritmo tornando-se frenético, as mãos dele batendo contra as nádegas de Clara, deixando a pele vermelha e marcada.
O jovem mecânico colocou-se à frente dela, forçando-a a continuar o sexo oral enquanto era possuída por trás. Clara estava no centro de um furacão de testosterona e sujeira. Ela sentia o suor deles pingando em suas costas, o cheiro de diesel impregnando seus cabelos, e cada estocada bruta a lembrava de que Clara estava morta. Ali, no chão daquela oficina, Larissa havia nascido.
Ela sentia o útero contrair a cada batida, a lubrificação misturando-se ao óleo do motor. O clímax veio como uma explosão de luz branca atrás de seus olhos, um espasmo que a fez morder o homem à sua frente enquanto o mecânico atrás dela rugia, despejando seu calor dentro dela, selando o capítulo com a substância real da vida que ela antes apenas imaginava.
O som do metal batendo contra o metal e a respiração pesada dos dois homens ecoavam em seus ouvidos como uma trilha sonora de um filme proibido. Clara se levantou devagar, as pernas trêmulas, sentindo o líquido quente escorrer por suas coxas e a viscosidade da graxa secando em sua pele. Ela não pediu licença. Apenas lançou um olhar por cima do ombro, um olhar que Larissa daria: carregado de um desdém faminto.
— Puta que pariu... — o mais velho exclamou, tateando em busca de um cigarro, as mãos ainda sujas de óleo e do suor dela. — Que porra foi essa? Você é um demônio, mulher!
— Se aparecer aqui amanhã, eu não respondo por mim! — o mais jovem gritou, a voz ainda embargada pelo clímax, enquanto ela já cruzava o limite da luz para a escuridão da estrada. — Você é a melhor foda que esse chão já viu, sua vadia de luxo!
Clara não respondeu. Ela entrou na mata, o corpo ardendo, os pés agora ignorando a dor das pedras. O medo, que antes era uma âncora, agora era um combustível. Ela correu. Correu até o SUV escondido, o coração batendo na garganta. Ao destravar as portas, o bip do carro soou como um retorno à civilização, um contraste absurdo com o que acabara de viver.
Ela entrou no carro e trancou as portas imediatamente. O silêncio do interior de couro cheirando a carro novo era ensurdecedor. Clara estava ofegante. Ela pegou uma garrafa de água mineral no console e um maço de lenços de papel.
Começou a se limpar freneticamente. A água gelada batendo na pele quente a fez estremecer. Ao passar o lenço em seus seios, viu as manchas negras de graxa — as impressões digitais dos mecânicos gravadas nela. Aquilo a excitava e a aterrorizava simultaneamente. “Eu poderia não ter saído de lá”, pensou, enquanto limpava o sêmen e o óleo de suas coxas. “Eles poderiam ter me amarrado. Poderia ter chegado um terceiro, um quarto... eu poderia ter desaparecido e ninguém nunca saberia onde a 'autora de sucesso' foi parar.”
A magnitude do risco a atingiu. Ela olhou para o anel de obsidiana. O metal parecia brilhar mais agora. Ela sabia que tinha traído tudo: o marido que a esperava no Rio, sua dignidade, sua segurança legal. Mas a sensação de ter sido usada daquela forma, de ter sido apenas "carne" sem nome, era um vício que ela acabara de injetar na veia. Foi melhor do que qualquer parágrafo que já escreveu.
Ela começou a se vestir. O sutiã de renda parecia áspero contra os mamilos ainda sensíveis. O vestido de seda deslizou pela pele que, há dez minutos, estava sendo prensada contra o capô de um caminhão imundo. Ao calçar os sapatos, ela se sentiu como uma espiã voltando de uma missão em território inimigo.
Clara ligou o motor silencioso e manobrou para voltar à estrada principal. A mente trabalhava em uma velocidade febril. “Onde é o próximo lugar?”, ela se perguntava, as mãos apertando o volante de couro. O Capítulo II do livro acontecia no Bar da Encruzilhada. Ela precisava de um lugar escuro, onde as pessoas fossem tão brutas quanto os mecânicos, mas onde ela pudesse manter o controle da narrativa.
“São Thomé é pequena demais... talvez a próxima cidade”, planejou. Ela precisava de um local onde ninguém soubesse quem era a mulher do arquiteto famoso, onde ela pudesse entrar nua novamente e ser apenas Larissa, a mulher que desafiava a moral de cada homem que cruzasse seu caminho. O risco de ser reconhecida era o que tornava o orgasmo mais intenso. Ela sentia que não conseguiria parar. O livro agora não era mais uma história; era o seu mapa de navegação para a própria perdição.
Clara olhou para o banco do passageiro, onde seu caderno repousava. Ela precisava escrever. Mas primeiro, precisava de mais sujeira. Onde seria o próximo altar? Onde ela seria humilhada novamente para que a sua arte pudesse finalmente ser "verdadeira"?
O lugar era uma construção isolada e austera, uma torre de dois andares com paredes pintadas de um roxo desbotado, cercada por varandas de madeira rústica e telhados de zinco que pareciam gemer sob o vento da madrugada. A luz amarelada que escapava pelas janelas pequenas e gradeadas cortava a escuridão da serra mineira, revelando o pátio de terra batida onde Clara agora caminhava.
Clara observou o local de longe, escondida na segurança ilusória de seu carro, esperando o tempo dilatar até as 3 da manhã. Ela monitorou cada saída, cada motor que roncava para longe, até que o movimento cessasse quase por completo. Sabia que o bar fecharia logo; era o momento de máxima vulnerabilidade e silêncio.
A vigília de Clara começou à meia-noite. Do alto da colina, protegida pela escuridão, ela observou o movimento do bar como uma predadora — ou uma mártir esperando o momento do sacrifício. Vinte pessoas, depois quinze, depois o silêncio que precede o fim de expediente. Às três da manhã, o último caminhão deu partida, deixando para trás apenas a poeira e o brilho intermitente do letreiro de neon.
Restavam três. Três sombras que se moviam lá dentro.
Clara abriu o caderno no banco do passageiro. A luz interna do SUV iluminou as páginas rabiscadas. No Capítulo II de seu livro, Larissa entrava em um bar e se oferecia ao dono em troca de silêncio. Mas a realidade não aceitava revisões. "E se eles não forem os brutos que eu imaginei?", pensou, o coração martelando contra as costelas. "E se forem piores?".
Ela começou o ritual. O vestido de seda deslizou para o chão do carro. A nudez, agora, não era apenas liberdade; era uma armadura de vulnerabilidade. Clara olhou-se no espelho, ajeitou o bob impecável e sussurrou: — Larissa não tem medo de ser vista. Larissa é a visão.
Ela abriu a porta. O frio das três da manhã a abraçou com a violência de um amante não convidado. Seus mamilos se tornaram pedras e cada poro de sua pele alva pareceu gritar. Ela caminhou pelo pátio de terra batida, o cascalho espetando seus pés, até que a luz amarelada e doentia do bar a envolveu.
Ao empurrar a porta de madeira, o cheiro de cachaça barata e fumo de corda a atingiu.
Os três homens pararam. No balcão, o dono, um homem de uns cinquenta anos com braços como toras de carvalho; em uma mesa lateral, dois trabalhadores de estrada, com as roupas impregnadas de poeira vermelha e cansaço.
— O bar fechou, dona — disse o homem do balcão, a voz saindo como um rosnado de motor velho. Ele não desviou o olhar dos seios dela, mas seus olhos não brilhavam com luxúria imediata; era uma curiosidade cautelosa, quase perigosa. — E aqui não é lugar de gente... como você.
Aquilo foi inesperado e não tinha no livro dela. Recusa....
Clara sentiu a vergonha subir pelo pescoço, mas a voz de Larissa assumiu o controle. Ela caminhou até o balcão, sentindo o ar frio circular por entre suas coxas sob o olhar dos três.
— "Gente como eu" é exatamente o que falta nesse balcão, não acha? — Ela apoiou os cotovelos na madeira áspera e cheia de sulcos. — Me disseram que o dono daqui serve a melhor bebida da serra. Ou será que você só serve quem usa calças?
O homem do balcão soltou um riso seco, os dentes amarelados aparecendo. — Eu sirvo quem paga. E você não parece ter onde carregar uma carteira.
— Eu trouxe algo melhor que dinheiro — ela retrucou, inclinando o corpo para frente, deixando que a luz da lâmpada nua acima deles destacasse a curva de seus seios e a brancura de sua barriga. — Eu trouxe a minha pele. E a vontade de sentir o gosto de algo que não seja sofisticado.
Se o homem do balcão se aproximasse veria que ela tremia.
Um dos homens na mesa, mais jovem e com as mãos sujas de barro, levantou-se lentamente. Ele caminhou até ela, parando a uma distância onde Clara podia sentir o calor do seu corpo e o cheiro de suor honesto. Era a antítese do seu marido; não havia perfume caro, apenas a verdade da carne.
— Você é do Rio, né? — o jovem perguntou, estendendo a mão, mas parando antes de tocá-la, como se tivesse medo de que ela se quebrasse. — Dá pra ver pela pele. É fina demais. Parece papel.
Por um momento ela quase desabou, saber que ela era do Rio fazia ela pensar se ele a reconheceria. Mas tentou voltar a ser a personagem do livro.
— Papel é feito para ser escrito — Clara sussurrou, olhando-o nos olhos, sentindo um tremor de medo que se transformava em um êxtase sombrio. — Por que você não usa essas mãos sujas para começar a primeira linha?
O dono do bar cruzou os braços, observando o jogo. — Você é louca ou tá fugindo de alguém? Mulher nenhuma entra assim num lugar desses às três da manhã se não tiver um parafuso solto.
— Eu não estou fugindo — ela disse, virando-se para o dono, sentindo o olhar do jovem em suas costas como se fosse um toque físico. — Eu estou chegando. Vocês passam o dia lidando com pedra, ferro e terra. Eu sou o contraste. Eu sou o que vocês sonham quando fecham os olhos e só sentem o cansaço.
Ela pegou um copo de vidro grosso sobre o balcão e o levou aos lábios, embora estivesse vazio. — Vocês são três. Eu sou uma. A matemática parece favorecer vocês... se souberem o que fazer com uma mulher que não quer ser tratada como dama.
Ela estava excitada, mas sentia o frio na coluna que não era do vento, mas do medo. A escritora e a personagem se digladiavam entre se entregar ou correr para o carro e voltar para casa.
O terceiro homem, que até então estava em silêncio, levantou-se. Era o mais velho, com olhos que pareciam já ter visto de tudo. Ele se aproximou, o som das suas botas pesadas ecoando no assoalho de madeira. — O problema de brincar com fogo, boneca, é que aqui a gente não tem extintor. Se a gente começar a escrever nesse seu "papel", não vai ter borracha que apague depois. Você aguenta o peso de uma mão que nunca pegou em nada mais leve que uma marreta?
Clara sentiu um latejo violento entre as coxas. A humilhação de estar ali, exposta àqueles homens que a viam como um objeto exótico, era o combustível que ela precisava para o clímax de sua obra e de sua vida.
— Eu não vim aqui em busca de leveza — Clara desafiou, a voz agora carregada de uma urgência carnal que a assustava. — Eu vim para ser o chão que vocês pisam. Quem vai ser o primeiro a provar que a minha pele não é feita de seda, mas de carne que queima?
O dono do bar deu a volta no balcão, o peso de seus passos fazendo as garrafas vibrarem. Ele parou a centímetros dela. O silêncio era absoluto. — Vamos ver se essa sua arrogância de madame sobrevive ao cheiro da minha oficina nos fundos — ele disse, a mão finalmente descendo e apertando a cintura dela com uma força que deixaria marcas roxas pela manhã. — Porque lá atrás, moça, você não é escritora. Você é só o que a gente quiser que você seja.
O dono do bar não a levou para os fundos. Ele a queria ali, onde o neon capenga projetava sombras nervosas sobre sua pele translúcida. O risco de um farol rasgar a escuridão da estrada de terra e iluminar o escândalo era o que mantinha Clara — ou Larissa — em um estado de transe elétrico.
O homem mais velho, cujas mãos tinham a textura de lixa grossa, segurou o rosto dela com uma força que a obrigou a olhar diretamente nos seus olhos cansados e famintos.
— Você quer ser tratada como bicho? — ele rosnou, o hálito de fumo e cachaça atingindo o rosto dela. — Pois bicho não tem nome.
Antes que ela pudesse responder, ele a calou com um beijo que não tinha nada de romântico. Era uma invasão. A língua dele era bruta, exploratória, e o gosto de tabaco forte inundou a boca de Clara. Ela gemeu contra os lábios dele, sentindo as mãos dos outros dois homens começarem a reivindicar o resto de seu corpo. O jovem de mãos sujas de barro apertava seus seios com uma urgência desajeitada, as unhas deixando sulcos leves na pele pálida, enquanto o terceiro homem deslizava as palmas pelas suas costas, descendo até as nádegas, apertando-as contra o metal frio de uma mesa de ferro.
A vergonha era uma onda quente que subia por suas bochechas, mas o prazer de ser reduzida a nada além de um pedaço de carne desejado era avassalador. "Eu sou apenas o que eles sentem", ela pensou, a mente de escritora registrando cada sensação para transformá-la em tinta depois.
— Olha só isso... — o mais jovem murmurou, a voz rouca de desejo. — Parece que ela foi esculpida no mármore. Dá até medo de quebrar, mas dá mais vontade ainda de sujar.
O dono do bar se afastou do beijo, deixando um fio de saliva conectá-los por um segundo. Ele a empurrou levemente para trás, fazendo-a sentar no banco alto do balcão.
— Ajoelha — ele ordenou. — Vamos ver se essa boca de luxo sabe trabalhar no pesado.
Clara deslizou para o chão de madeira. O contato do joelho com a poeira e os restos de serragem foi o ponto de ruptura. Ela era Larissa agora. Ela olhou para cima, os olhos castanhos brilhando sob a luz amarela, e abriu o zíper do homem à sua frente.
Quando ela o envolveu, o contraste foi imediato: a sofisticação de sua técnica contra a rusticidade daquele momento.
— Caralho... — o dono do bar arfou, as mãos grandes enterrando-se nos cabelos negros dela, puxando o corte bob impecável sem cuidado. — Você nasceu pra isso, né, sua vira-lata de raça? Que boca... é quente demais.
— Olha como ela faz — o mais velho comentou, aproximando-se e acariciando os ombros de Clara com uma bota pesada, pressionando levemente o couro contra a pele alva. — Ela engole como se fosse a última refeição da vida. Parece que tá querendo tirar a nossa alma pela ponta.
Os elogios eram vulgares, mas para Clara, soavam como música. Ela sentia a língua trabalhar com uma precisão doentia, explorando cada textura, sentindo o pulso da masculinidade bruta dele contra sua garganta. Ela queria impressioná-los. Queria que eles soubessem que, embora fosse uma "madame", ela possuía uma fome que eles nunca encontrariam nas mulheres daquela região.
— Nunca vi nada igual — o jovem de mãos de barro disse, ajoelhando-se ao lado dela para poder beijar seu pescoço e morder seu ombro enquanto ela continuava o serviço. — Essa boca é um pecado, moça. Você faz um homem esquecer até o próprio nome.
O som de um motor ao longe, na estrada de terra, fez o corpo de Clara retesar. O medo de ser descoberta — de ter sua vida no Rio destruída por um motorista de passagem — enviou uma descarga de adrenalina tão forte que sua lubrificação aumentou instantaneamente. Ela não parou. Pelo contrário, ela se entregou com mais ferocidade, querendo ser pega, querendo que o risco fosse a nota final daquela sinfonia de degradação.
— Isso... usa essa língua, sua vadia — o dono do bar gemia, o corpo tremendo sob o toque dela. — Você é melhor que qualquer história que já contaram nesse balcão. Você é a própria tentação.
Clara sentia-se poderosa em sua submissão. Ela era a mestre daquela cena, conduzindo aqueles homens brutos ao limite apenas com a perícia de seus lábios e a entrega de seu corpo, enquanto o neon lá fora continuava a piscar, como uma testemunha silenciosa de que a Autora havia finalmente mergulhado no abismo que tanto temia e desejava.
O clímax no Bar da Encruzilhada não era mais uma questão de pesquisa literária; era uma entrega absoluta. O risco de um carro passar na estrada de terra e iluminar a cena através das janelas de vidro sujo era o que mantinha os sentidos de Clara em carne viva.
O dono do bar, cujo nome ela nem sabia — e nem queria saber —, a suspendeu do chão com uma facilidade bruta, as mãos grandes enterrando-se na carne de suas coxas pálidas. Ele a sentou na beira da mesa de madeira, que rangeu sob o peso.
— O jovem quer um pedaço também — o dono rosnou, a voz vibrando no peito de Clara. — E eu não vou esperar nem mais um segundo pra sentir como essa sua pele de seda aperta.
Ele a abriu, forçando suas pernas para os lados. O ar frio da madrugada bateu em sua intimidade exposta, mas o calor vinha dos homens. O mais jovem aproximou-se por trás, colando o peito suado nas costas de Clara, enquanto o dono do bar se posicionava à frente dela.
— Olha pra isso — o jovem sussurrou no ouvido dela, as mãos de barro agora apertando seus seios com força, deixando marcas escuras na brancura. — Ela tá encharcada. Parece que tava rezando por isso o caminho todo.
— Eu não rezo — Clara conseguiu dizer, a voz de Larissa saindo em um suspiro entrecortado. — Eu escrevo o meu destino. E hoje... o destino de vocês é me usar até não sobrar nada da escritora.
O dono do bar não respondeu com palavras. Ele entrou nela com uma estocada seca, profunda e desprovida de qualquer delicadeza. Clara soltou um grito que foi abafado pela mão do jovem, que tapou sua boca por trás.
— Grita não, boneca — o jovem disse, rindo baixo. — Se alguém passar lá fora, vai achar que é um animal sendo abatido. E não deixa de ser, né?
Enquanto era possuída com um ritmo frenético e pesado pelo dono do bar, Clara sentia o ventre contrair em espasmos de prazer e dor. O impacto do corpo dele contra o seu fazia seus seios balançarem violentamente. Foi quando o terceiro homem, o mais velho de olhar cínico, aproximou-se lateralmente, exibindo-se para ela.
— Não para o serviço, não — o velho ordenou, a voz carregada de autoridade. — A boca de luxo ainda tem trabalho.
Mesmo sendo estocada com força, Clara inclinou o corpo para frente. A mente de escritora lutava para processar a sobrecarga sensorial: o cheiro de suor, o som do metal da mesa batendo no chão de madeira, o gosto de masculinidade bruta em sua boca e a sensação de ser preenchida de forma tão violenta embaixo.
— Puta que pariu... olha essa cena — o dono do bar exclamou, o suor pingando de sua testa na barriga de Clara. — Ela tá levando o ferro embaixo e ainda pede mais por cima. Você é insaciável, sua vadia!
— Ela quer ser preenchida de todo jeito — o velho comentou, sentindo a pressão dos lábios de Clara. — Nunca vi uma mulher de cidade ter tanta fome de sujeira. Bebe tudo, moça. Deixa essa sua garganta de madame conhecer o que é um homem de verdade.
Os diálogos eram como chicotadas em sua psique.
— Você tá sentindo isso? — o jovem perguntou, apertando o pescoço dela levemente por trás enquanto ela se engasgava com o sexo oral e o prazer da penetração. — Tá sentindo como o seu corpo tá tremendo? Você não é mais aquela mulher do carro chique. Aqui você é nossa. Você é só um buraco quente pra gente descarregar o cansaço do dia.
— Eu... eu sou... — Clara tentou falar, soltando-se por um segundo apenas para arquear. — Eu sou o que vocês quiserem. Me sujem. Me marquem. Não deixem um centímetro dessa pele sem a marca de vocês!
O dono do bar aumentou a velocidade, as estocadas agora curtas e brutais, fazendo Clara perder o fôlego. O prazer era tão intenso que ela sentia as extremidades do corpo formigarem. O risco, a sujeira, o cheiro de diesel e a humilhação verbal formavam o coquetel perfeito.
— Então toma o que você veio buscar! — o dono rugiu, segurando-a pela cintura com tanta força que os dedos dele pareciam querer encontrar os ossos da bacia dela. — Sente o peso do interior, sua madame de merda!
O clímax veio como uma explosão de estática. Clara sentiu o calor inundá-la por dentro enquanto, simultaneamente, o homem à sua frente chegava ao limite em sua boca. Ela fechou os olhos, as lágrimas de êxtase escorrendo e se misturando à graxa e ao suor em seu rosto. Naquele momento, o "Manuscrito Vivo" recebia seu parágrafo mais sombrio, escrito não com tinta, mas com a substância real e crua da perdição que ela tanto buscou.
O ar no Bar da Encruzilhada estava saturado, pesado como o vapor de uma caldeira prestes a explodir. Clara sentia o ritmo dos homens mudar; a curiosidade inicial havia sido substituída por aquela urgência cega que precede o fim.
O jovem que a segurava por trás foi o primeiro a desmoronar. Ele soltou um rosnado baixo, enterrando o rosto no pescoço de Clara, mordendo a pele alva enquanto seu corpo se retorcia em espasmos. — Você acabou comigo, sua maldita... — ele arfou, a voz sumindo enquanto ele se afastava, trêmulo, limpando o suor da testa com o braço sujo de barro. Sem olhar para trás, ele cambaleou em direção à porta. O som de sua moto cortando o silêncio da madrugada foi o sinal de que uma parte do sonho de Larissa havia partido.
O mais velho, que recebia o sexo oral, sentiu o ápice chegar logo em seguida. Ele segurou a cabeça de Clara com força, as mãos calejadas prendendo o bob impecável dela enquanto ele se desfazia. — Guarda isso de recordação, madame — ele disse com um sorriso cínico, recompondo-se. Ele lançou um último olhar para o corpo dela, marcado de vermelho e graxa, e saiu para a escuridão, o som de seus passos no cascalho morrendo aos poucos.
Ficaram apenas Clara e o dono do bar.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo zumbido do neon. Clara não se levantou do chão de madeira. Ela se arrastou até o dono do bar, que permanecia encostado no balcão, observando-a com uma mistura de exaustão e fascínio. Ela o envolveu novamente, mas desta vez, havia uma lentidão perversa em seus movimentos.
— Eles foram embora... mas a Larissa não vai a lugar nenhum — Clara sussurrou, olhando para cima, os olhos dilatados refletindo a luz doentia do bar. Ela voltou ao serviço com uma ferocidade renovada, mas suas palavras agora fluíam entre os toques, como se ela estivesse ditando o próprio epílogo.
— Você sente isso? — ela murmurou, a voz abafada e quente. — Sente como eu te domino enquanto finjo que você manda em mim? No meu mundo, lá no Rio, homens como você nem existem. Vocês são invisíveis. Mas aqui... aqui você é o meu Deus de óleo e cachaça.
Ela aumentou a pressão, os olhos fixos nos dele, desafiando-o a aguentar. — Me diz... o que você sente vendo uma mulher que custa mais do que esse bar inteiro de joelhos na sua frente? Você sente o poder de estragar algo perfeito? É isso que você quer, não é? Quer que eu volte para o meu marido com o seu cheiro impregnado na minha alma.
O dono do bar fechou os olhos, as mãos agarrando a borda da madeira do balcão com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Cala a boca e faz o que você faz de melhor, sua louca... — ele conseguiu gemer, mas Clara não parou de falar.
— Eu vou descrever cada detalhe desse gosto — ela continuou, provocando-o com a língua e com as palavras. — Vou escrever sobre como o seu suor é amargo e como essa sua oficina cheira a pecado. Vou fazer milhares de pessoas sentirem o que eu estou sentindo agora: a vergonha de ser tão imunda e o prazer de não dar a mínima para isso. Eu sou a sua melhor foda e você é o meu melhor parágrafo.
Ela o levou ao limite absoluto, usando toda a técnica que a sofisticada Clara possuía e toda a depravação que Larissa exigia. Quando ele finalmente cedeu, foi um rugido que pareceu estremecer as paredes de zinco. Ele descarregou tudo o que lhe restava, a respiração saindo em solavancos pesados.
Clara continuou até o último reflexo, até que ele estivesse completamente esgotado. Ela limpou o canto da boca com o dorso da mão, deixando um rastro de umidade sobre a pele marcada.
— Acabou? — ele perguntou, a voz fraca, enquanto ela se levantava devagar, sentindo as pernas bambas e a viscosidade entre as coxas.
Clara olhou para o relógio de parede. Quatro da manhã. O Capítulo II estava terminado. — Para você, sim — ela respondeu, a voz agora fria e distante, a máscara de Larissa começando a rachar para dar lugar à Autora. — Para mim, a história está apenas começando.
Ela caminhou em direção à porta, nua, ignorando o frio e a dor nos joelhos. Sabia que o SUV a esperava na escuridão, e com ele, o retorno à vida que ela agora desprezava, mas que precisava para publicar a sua verdade.
A viagem de volta para São Thomé das Letras foi um borrão de adrenalina e exaustão. No quarto rústico da hospedaria, o cheiro de diesel e suor ainda emanava dos poros de Clara, impregnando os lençóis de algodão cru. Ela não dormiu. Sentada à pequena escrivaninha de madeira, ela datilografou com uma fúria possessiva. As palavras não eram mais inventadas; eram extraídas da memória muscular, do ardor entre as coxas e da marca roxa que o dono do bar deixara em seu pulso.
Na manhã seguinte, o sol da montanha entrou pela janela com uma claridade acusadora. Clara se vestiu com o rigor de sua vida no Rio: um linho bege, óculos escuros de grife e os cabelos impecavelmente alinhados. A "Larissa" estava trancada no caderno.
Ao descer para a recepção, a dona da hospedaria, uma mulher de sorriso gentil e mãos calejadas pela lida no campo, a recebeu com entusiasmo.
— Já vai, Dona Clara? Espero que o sossego das nossas montanhas tenha ajudado na sua inspiração — disse a mulher, enquanto processava o pagamento. — Sabe, meu marido comentou que viu um carro bonito como o seu passando pela estrada da serra ontem à noite.
O estômago de Clara deu um solavanco. Ela manteve o rosto impenetrável. — O silêncio daqui é... transformador — respondeu Clara, a voz firme, embora suas mãos estivessem geladas dentro dos bolsos.
— Que bom! Ah, espere, ele acabou de chegar. Preciso que ele carregue umas malas. Tião! Vem cá conhecer a nossa hóspede famosa!
A porta dos fundos se abriu e o mundo de Clara pareceu inclinar-se. O homem que entrou era o mesmo que, poucas horas antes, a mantinha prensada contra o balcão de madeira, o mesmo cujo sabor ainda parecia latente em sua memória. Ele usava o mesmo macacão, agora com menos graxa, mas com o mesmo olhar pesado que a devorara na escuridão.
O silêncio que se instalou na recepção foi carregado de uma eletricidade estática perigosa.
— Tião, essa é a Dona Clara — a esposa disse, orgulhosa, sem notar o abismo que se abria entre os dois. — Ela é aquela escritora famosa do Rio que te falei, a que sai nos jornais. Imagina só, uma mulher tão importante escolhendo a nossa casa pra escrever o novo livro dela!
Tião parou a dois passos de Clara. Ele retirou o boné, revelando os cabelos desalinhados. Seus olhos percorreram o rosto dela — agora maquiado e sofisticado — com uma lentidão que fez Clara sentir-se nua novamente, ali mesmo, sob a luz do sol e o olhar da esposa traída.
— Escritora, é? — a voz de Tião saiu rouca, exatamente como Clara a lembrava. Ele não desviou o olhar. — E sobre o que é o livro, Dona Clara? Alguma história de amor dessas de cinema?
Clara sentiu o sangue fugir do rosto. O pânico lutava contra o instinto de sobrevivência. — É sobre... máscaras — ela conseguiu dizer, sustentando o olhar dele com uma coragem doentia. — Sobre pessoas que fingem ser o que não são para conseguir o que desejam.
Um sorriso quase imperceptível surgiu nos lábios de Tião. Era um sorriso de posse, de quem detinha o segredo que poderia incinerar a vida luxuosa daquela mulher em um segundo.
— Parece uma história perigosa — ele comentou, dando um passo à frente para pegar a mala de Clara, os dedos dele roçando propositalmente nos dela. O toque foi como um choque elétrico. — Às vezes, a gente descobre que a ficção é muito mais suja que a realidade, não é, madame?
— Tião, não amole a moça com sua conversa bruta! — a esposa ralhou, rindo, enquanto entregava o recibo a Clara. — Boa viagem, querida. Esperamos o seu livro com ansiedade. Vou pedir pro Tião colocar sua mala no carro.
Clara caminhou até o SUV, sentindo as pernas trêmulas. Tião a seguiu em silêncio. No pátio, longe dos ouvidos da esposa, ele colocou a mala no porta-malas e fechou-o com um estrondo metálico que soou como um veredito.
Ele se aproximou do vidro do motorista enquanto ela ligava o motor. — A gente se vê no próximo capítulo... Larissa — ele sussurrou, a voz carregada de uma promessa sombria.
Clara não respondeu. Ela acelerou, deixando para trás a poeira de Minas, mas levando consigo o terror de que o seu "Manuscrito Vivo" agora tinha um coautor que sabia exatamente onde ela morava — e o preço do seu silêncio.




