Pra você entender de onde eu venho: meu nome é Viviane, tenho 36 anos, sou morena de cabelo até as costas e vivo numa casa de classe média com meu marido e filha. Eu e o Rafael, esse é o nome do meu marido, estamos casados há 14 anos, e nunca nada me fez questionar que a vida era daquela forma: ele trabalhava, eu cuidava da casa, ela estudava. Bela é minha filha de 18 anos, castanha escura de olhos claros, corpo magro mas já com formato de mulher, e até três dias atrás eu jurava que não tinha nada escondido pra contar.
Mas o marido viajou de novo e a casa ficou só com a gente, eu e Bela, e cada vez mais eu acordo percebendo que algo mudou e eu não sei quando foi exatamente.
Sexta-feira, fim de tarde.
O telefone tocou e era ele. Mudaram a reunião pra segunda, vôo na segunda feira à noite. Quatro dias fora. Eu disse que tudo bem, agradeci, guardei o celular e fiquei parada ali no corredor olhando a porta como se ela fosse me responder algo.
Bela tava na sala terminando de arrumar alguns documentos. Ela acabou de sair do ensino médio e a gente tá montando material da faculdade que ela vai começar, escolher o curso, separar os documentos, tudo isso. A mesa da cozinha estava cheia de papel e café frio. Ela levantou pra guardar algumas coisas, passou no corredor e me deu um beijo rápido na bochecha.
"Você comeu algo hoje mãe?"
Eu disse que sim, mas eu não tinha comido nada. O cheiro dela ficou no ar, desodorante leve, fresco de quem lavou o rosto de manhã e não mudou mais nada desde então.
A rotina era aquela de sempre: eu arrumava a casa, ele voltava, ela estudava. Mas agora ele ia demorar pra voltar e eu já sentia o silêncio da casa diferente. Não é ruim, é só que tem mais espaço, e nesse espaço, com só nós duas, eu ia olhar pra minha filha de um jeito que antes eu não olhava.
Eu resolvi tomar banho e me arrumar rapidinho pra ir ao supermercado antes de fechar. Entrei no nosso quarto, fechei a porta mas não tranquei, nunca tranco em casa, o hábito de quem não tem nada pra esconder. Comecei a tirar a roupa: a camiseta suada de arrumar a casa por cima, descer o sutiã pelas costas, soltar o elástico da calcinha e puxar pra baixo, deixar tudo cair na cadeira da bancada. A pele de fora, quente do dia, respirando no ar gelado do ventilador.
Aí a porta abriu.
Bela entrou sem bater, ela sempre entra sem bater, é coisa de quem mora ali e acha que o quarto é da casa toda, não só nosso. Ela disse algo, eu nem lembro o quê, porque o que eu lembro é o olhar dela parado em mim. Não foi um olhar de filha olhando a mãe. Foi mais que isso, ele demorou na minha pele de um jeito que eu senti antes de entender.
A gente congelou.
O corpo respondeu primeiro: minha pele formigou inteira, da barriga até o peito, como se os pelos tivessem levantado juntos, e um calor subiu do umbigo pros lábios, aquele molhado que a mulher sente e não pede pra sentir. A cabeça chegou atrasada, já em pânico, gritando `"filha!"`, minha filha de 18 anos parada na porta vendo eu nua aqui no nosso quarto.
A boca falou menos que os dois canais juntos:
"Entra, ta fazendo o que parada ai na porta."
Fui direta, e o tom saiu calmo demais pro que eu estava sentindo. Nós duas paradas ali, ela com a mão no cabo da porta, os olhos castanhos claros descendo devagar e subindo de volta pras bochechas avermelhadas dela. Eu vi o vermelho aparecer em cima dos ossos do rosto dela, fininho, tipo quem tenta esconder que viu algo que não devia ter visto mas não desviou o olhar.
"Desculpa, mãe." Ela puxou a porta quase fechando mas deixando aquele vão aberto pra entrar até a cama. "Eu preciso pegar a camiseta azul que ficou aqui."
Ela tava certa, eu tinha guardado uma peça dela na gaveta da nossa cama. Eu peguei e dei pra ela com a mão esticada, sem me cobrir porque já era tarde demais pra aquilo fazer sentido. Passei a mão na própria barriga e na cintura, na pele que já tava de fora, como se o gesto dissesse "eu ainda existo aqui" mesmo sendo a mãe. O braço dela roçou no meu quando ela pegou a camiseta. Eu senti o toque, leve, rápido, mas quente do corpo dela.
Ela saiu. A porta ficou entreaberta porque ela não costuma fechar direito.
Eu tomei banho. Depois me vesti rapidinho e guardei a coisa na cabeça que ia dar pra eu resolver depois, `"é só isso, você tá exagerando."` Mas o corpo não concordava com a cabeça porque continuava quente desde que os olhos dela passaram por mim.
Naquela noite a gente comeu juntas na cozinha. O jantar era simples, arroz, feijão e frango assado. Bela falava do último ano, de prova oral, da lista da faculdade. Eu escutava e respondia coisa normal, mãe conversando com filha. Mas eu via ela mexer no short sem pressa, ajeitando o tecido na coxa, a barra subindo um pouco cada vez que ela se movia na cadeira, e a camiseta justa marcava o busto de um jeito que eu não lembrava ter notado antes. Eu disse `"você emagreceu filha"` e a resposta dela foi um sorriso tímido.
"Não, mãe. É essa roupa."
Mas era mesmo? Eu ia descobrir.
Na manhã seguinte, sábado, ela entrou na cozinha me pegando com o café na mão. Eu tava só de regata e short, a roupa que uso em casa quando ninguém olha, e eu esqueci que "ninguém" agora era só a Bela. A regata ajustada marcava tudo: cintura, busto, o tecido puxado no meio da barriga.
Ela parou no batente da porta. O olhar dela passou por mim antes de chegar na xícara, não foi acidental porque eu vi o caminho: pés subindo, cintura, peito, depois o rosto que já tinha o sorriso pronto de quem disfarça.
"Quer café também?"
Ela entrou e pegou a caneca sentada do outro lado da mesa. Eu via ela beber e sabia que o olhar dela ia voltar pra mim, demorado, tipo quem lê algo e não quer terminar a página.
O cheiro do café escondeu tudo por um tempo. Mas quando eu me levantei pra guardar minha xícara, as duas passamos juntas na passagem da mesa pras cadeiras. O ombro dela roçou no meu, leve, nada que uma pessoa normal ligaria, mas nós duas congelamos meio segundo, o suficiente pra cada uma sentir o calor do corpo da outra por cima do tecido.
Eu continuei andando e fui pro balcão da cozinha lavar a louça. A água gelada na mão ajudou. Mas enquanto esfregava a esponja, eu pensava `"o que foi aquilo?"`, não era só um ombro roçando no outro, porque o corpo dela não se afastou logo. Ficou aquele meio segundo de mais.
E o pior: o meu corpo também ficou. Eu senti o calor do braço dela no meu, e quando a água gelada molhou a mão, a outra parte da minha barriga ainda tava quente por causa daquele roçar. `"Minha filha,"` eu pensei de novo, mas dessa vez a palavra não acalmou nada.
O telefone tocou na cozinha. Era ele ligando já do hotel. Conversa normal, pergunta se a casa estava ok, se Bela estava bem. Eu respondi tudo, disse que sim, que tava tranquila, e porra, eu menti porque eu não estava tranquila desde aquela porta aberta no meu quarto.
Depois da ligação eu fui à sala sentar com Bela. As duas olhando tela de filmes pra passar o tempo. O sofá é largo, mas a gente sentou perto demais sem pensar. Ela tava com o short curto e as pernas finas esticadas, o joelho quase encostando no meu. A regata dela marcava o busto quando ela se inclinava pra frente pra dar play, e o cheiro do desodorante fresco misturava com algo de pele, a pele de mulher, não mais a pele de adolescente que eu achava que conhecia.
"Você tá bem mãe?" Ela perguntou de repente, virando o rosto pra mim.
Eu sorri tipo quem esconde: "Tô sim, filha. Por quê?"
"Nossa mãe, você tá meio quieta."
Aí eu entendi que ela também tinha percebido algo, não necessariamente a mesma coisa que eu, mas alguma rachadura na superfície que antes era lisa. A máscara de mãe e filha ainda estava inteira pro mundo lá fora. Mas naquele sofá, com o marido viajando e as quatro paredes do nosso silêncio, a gente já sabia que algo tava diferente.
E agora?