Caio, o feio


Eu sempre soube que era feio. Não aquele feio de filme que no final conquista todo mundo. Feio de verdade. Nariz grande e torto desde que eu caí de bicicleta com oito anos e minha mãe nunca quis operar. Boca fina pra caralho, lábio de baixo quase inexistente. Olho pequeno, fundo, cara de quem tá pedindo desculpa o tempo todo. Pele oleosa, poro aberto, cabelo já ralo aos vinte e sete com uma entrada que avança todo mês. Corpo magro de um jeito estranho, ombro caído, peito sem nada, barriga que aparece mesmo quando eu como merda. Pau médio, virado pra baixo, com aquela curva que eu detesto. Nada que alguém quisesse ver com luz acesa.
Eu saía quase toda sexta e sábado. Saía porque ficar em casa era pior. Em casa eu ficava deitado rolando Instagram vendo cara bonito sendo desejado e a solidão virava um peso no peito. Então eu me arrumava. Banho longo, perfume caro que eu comprava só pra me sentir menos invisível, camisa escura pra disfarçar o peito, calça que apertava um pouco na bunda (a única parte que eu achava ok). Olhava no espelho e mentia: “hoje talvez”. Mas eu já sabia. Sempre soube.
O caminho até a balada era o mesmo ritual de se foder. No Uber eu já imaginava as rejeições. Já montava a história de que ninguém ia me olhar. E quando chegava, a realidade confirmava. Pista lotada, corpo bonito se esfregando, risada, beijo molhado. Eu ficava na borda com um copo de vodca barata na mão tentando parecer despreocupado. Às vezes alguém passava o olhar por mim e eu sentia um flash de esperança idiota. Depois o olhar seguia adiante como se eu fosse móvel. Eu sorria sozinho, amargo, e bebia mais.
Havia noite que eu ficava horas parado fingindo que estava curando o ambiente. Observava os outros. O jeito que os caras bonitos se tocavam sem medo, o jeito que um sorriso era respondido com outro sorriso, o jeito que um toque leve na cintura virava convite. Eu imaginava como seria ser desejado daquele jeito. Imaginava alguém me puxando pela mão, me empurrando contra a parede, me beijando com fome. Mas era só imaginação. Na prática eu voltava sozinho. Sempre. O caminho de volta era o pior. No silêncio do carro a baixa autoestima falava alto: “Você é um fracasso. Ninguém te quer. Nem no escuro”.
Mas tinha o darkroom.
O darkroom era meu consolo sujo. O lugar onde a luz não existia e, portanto, a feiura também não. Eu entrava quase sempre depois da meia-noite, quando a frustração já tinha virado um nó na garganta. O cheiro era sempre o mesmo: suor, poppers, sexo, borracha. Eu andava devagar, mão pra frente, tocando corpo. Às vezes alguém me empurrava. Às vezes eu era empurrado. Eu ajoelhava fácil. Era o que eu sabia fazer. Chupar. Eu chupava bem. Tinha aprendido a chupar bem porque era a única coisa que me dava algum poder, alguma utilidade. Eu abria a boca, recebia o que vinha, engolia, engasgava, continuava. Às vezes era um pau duro e generoso. Às vezes era mole e eu tinha que trabalhar até ele reagir. Eu não via o rosto. Não via se o dono era bonito ou não. Só sentia. E enquanto eu chupava eu pensava: “Pelo menos isso eu consigo. Pelo menos aqui eu sirvo pra alguma coisa”.
Teve uma noite, um sábado de chuva fina, que eu consegui três. Três caras diferentes. Um depois do outro. O primeiro foi rápido, gozou em menos de dois minutos e sumiu. O segundo demorou mais, segurava minha cabeça, me fazia engolir até o fundo. Eu quase vomitei, mas continuei. O terceiro me puxou pelo cabelo e me usou como se eu fosse só uma boca. Quando saí dali, a boca doendo, o queixo molhado de saliva e porra, eu me sentia… vitorioso de um jeito doentio. No caminho de volta, no Uber, eu já estava montando a versão que ia contar no grupo. “Fui no dark e mamando três. Um deles gozou na minha cara”. Eu omitia a parte em que nenhum deles me beijou, em que nenhum deles quis me ver depois, em que eu voltei sozinho e chorei no banho. Eu omitia a solidão. Eu me vangloriava. Porque se eu não inventasse um pouco de glória, o que me restava?
Os amigos — se é que se pode chamar assim — riam, davam emoji de fogo, perguntavam detalhe. Eu inventava detalhe. Inventava que um deles era gostoso, que me elogiou, que pediu meu número. Mentira pequena que me fazia sentir menos miserável por algumas horas. Depois a mentira evaporava e sobrava só o gosto de porra na boca e a certeza de que eu era descartável.
Eu me odiava por isso. Me odiava por precisar do darkroom. Me odiava por ajoelhar no escuro e fingir que era suficiente. Me odiava por voltar pra casa e me masturbar lembrando do gosto, do cheiro, da sensação de ser usado. E me odiava ainda mais por, no dia seguinte, já estar planejando a próxima saída. Porque a alternativa era ficar em casa sozinho com a baixa autoestima gritando que eu nunca ia ser escolhido. Que ninguém nunca ia me olhar com desejo de verdade. Que o máximo que eu podia aspirar era ser uma boca anônima no escuro.
Eu tinha tentado aplicativo. Tinha tentado. O perfil era o mais honesto possível: foto real, descrição real. “Feio, mas bem de boca”. As respostas eram raras. Quando vinham, eram proposta de “só oral sem compromisso” ou “pode vir mamando”. Eu ia. Às vezes. Chegava, ajoelhava, fazia o serviço, ia embora. Ninguém me pedia pra ficar. Ninguém me beijava. Ninguém me abraçava depois. Eu voltava pra casa com a sensação de ter sido um vibrador humano. Útil. Descartável.
Teve noite que eu chegava a ponto de me odiar tanto que pensava em parar de sair. Pensava em aceitar a solidão como sentença definitiva. Mas a solidão do apartamento era pior. O silêncio. A cama grande demais. O espelho do banheiro que me devolvia a imagem que eu detestava. Então eu saía de novo. E o ciclo recomeçava.
Foi numa dessas noites — uma sexta qualquer, quente, úmida, o ar pesado de chuva que não caía — que tudo começou a mudar.
Eu estava no mesmo bar de sempre, no mesmo canto de sempre, com o mesmo copo de vodca na mão. Já tinha tentado conversar com dois caras. Um me olhou de cima a baixo e disse, educado demais: “Não, obrigado”. O outro nem respondeu, só virou de costas. Eu já estava calculando o horário de ir pro darkroom quando senti alguém parar do meu lado.
Não era um cara bonito no sentido clássico. Não era o tipo que faz as pessoas se virarem na rua. Era… diferente. Alto, ombro largo, cabelo preto curto, barba por fazer. Os olhos eram escuros. Ele me olhou e ficou olhando. Não passou o olhar por cima. Não desviou.
— Tá sozinho faz um tempo, hein — ele falou. Voz baixa, rouca, sem pressa nenhuma.
Eu engoli em seco. A primeira reação foi a de sempre: desconfiança. Ninguém se aproximava de mim sem motivo. Talvez quisesse que eu chupasse ele. Talvez quisesse só uma boca fácil.
— Tô — respondi, seco.
Ele deu um sorriso de canto. Não era deboche. Parecia só… curioso.
— Inácio.
Eu quase não falei o meu. Travei um segundo. Ele esperou.
— Caio.
— Caio — ele repetiu. — Tá com cara de quem já desistiu da noite.
Eu ri, nervoso, e bebi o resto da vodca de uma vez.
— Talvez.
Ele pediu outra rodada. Não perguntou se eu queria. Só pediu. Quando o garçom trouxe, empurrou o copo na minha direção.
A conversa foi meio torta no começo. Ele perguntou o que eu fazia. Eu falei que era designer gráfico freelancer e que mal sobrevivia. Ele falou que trabalhava com construção civil, obra, essas coisas. Mão grande, dedo grosso, pele um pouco áspera. Eu olhava aquelas mãos e pensava besteira. Ele perguntou se eu vinha muito ali. Eu falei que sim, quase toda semana. Ele fez uma cara de “entendi” e não aprofundou.
A gente ficou conversando umas coisas aleatórias. Música, a chuva que não caía, um bar perto que tinha fechado. Nada profundo. Nada de ele me ler. Só conversa de bar mesmo. Mas ele não desviava o olhar. E isso já era estranho o suficiente pra mim.
Em certo momento ele falou:
— Você fica o tempo todo se encolhendo. Como se tivesse pedindo desculpa por ocupar espaço.
Eu baixei o olhar pro copo. O gelo já tinha derretido.
— Costume.
Ele deu de ombros.
— Sei lá. Achei interessante.
A frase ficou pairando. Eu não sabia se era cantada, se era só conversa. O corpo reagiu antes da cabeça. O pau endureceu dentro da calça, traidor. Eu desviei o olhar, constrangido. Ele notou. É claro que notou.
— Quer sair daqui? — ele perguntou.
Eu hesitei. A voz da baixa autoestima gritou: vai ser igual. Vai te usar e te mandar embora. Vai te fazer ajoelhar e depois sumir.
Mas outra voz, menor, perguntou: e se não for?
Eu aceitei.
O apartamento dele ficava uns quinze minutos de carro. Simples, limpo, cheio de ferramenta e umas plantas meio mortas. Cheirava a café velho e cimento. Eu entrei com o coração batendo forte demais. Já esperava o roteiro de sempre: luz baixa, mão na minha nuca, empurrão em direção ao chão.
Ele acendeu a luz da sala. Não toda. Só o suficiente.
— Pode tirar a camisa se quiser — ele falou, já tirando a dele.
Eu tirei. Fiquei desconfortável. A luz me expunha. Nariz torto, pele ruim, cabelo ralo, corpo magro e desajeitado. Eu baixei a cabeça. Ele se aproximou, segurou meu queixo e me fez olhar pra ele.
O beijo foi seco no começo. Depois ficou mais molhado, mais urgente. A língua dele entrou sem pedir licença. Eu gemi sem querer. Fazia tempo que alguém me beijava de verdade. A maioria dos caras no darkroom nem beijava. Só usava a boca.
As mãos dele desceram pelas minhas costas, apertaram a bunda com força, puxaram meu corpo contra o dele. Eu senti o pau duro dele contra a minha barriga. Grosso. Quente. Eu estremeci.
Ele me empurrou contra a parede. A mão dele desceu e apertou meu pau por cima da calça.
— Já tá duro — ele falou, quase rindo.
Eu não respondi. Só gemi quando ele apertou mais forte.
Ele abriu meu cinto, puxou a calça e a cueca pra baixo de uma vez. Meu pau saltou pra fora, semi-duro, a curva visível, o saco encolhido de nervosismo. Eu esperava o comentário. O olhar de decepção. Não veio. Ele só segurou, puxou a pele pra trás e passou o polegar na cabeça, espalhando o pré-gozo.
— Vem — ele puxou meu braço em direção ao quarto.
A cama era desfeita. Ele me empurrou de costas e ficou em pé na beira, abrindo o próprio cinto. O pau dele era grosso mesmo, veias marcadas, cabeça escura. Eu fiquei olhando. Ele se aproximou, segurou meu cabelo e empurrou a cabeça na direção.
— Abre.
Eu abri. Ele enfiou. Não foi devagar. Foi fundo de primeira. Eu engasguei, os olhos marejaram. Ele segurou meu cabelo com as duas mãos e fodeu minha boca. Rápido, fundo, sem muita piedade. Eu babava, engasgava, tentava acompanhar. A cada estocada eu sentia o pau batendo no fundo da garganta. Ele gemia baixo, um som gutural.
— Isso… engole.
Eu engoli o que dava. A saliva escorria pelo queixo, caía no peito. Ele puxou o cabelo com força e me obrigou a olhar pra cima enquanto enfiava. Os olhos dele estavam escuros, a boca entreaberta.
Quando ele tirou, eu estava ofegante, a boca vermelha, o queixo molhado.
— De quatro.
Eu virei. Ele se posicionou atrás, abriu minha bunda com as duas mãos e cospiu direto no cu. O dedo entrou sem muito preparo. Eu retraí, mas ele não parou. Um dedo, depois dois. Rápido, sem cerimônia. Quando os dedos saíram, eu senti a cabeça do pau pressionando.
— Relaxa.
Ele empurrou. Doeu. Eu gritei no travesseiro. Ele não parou. Foi entrando devagar, mas firme, até enfiar tudo. Quando chegou no fundo, ficou parado uns segundos, respirando pesado.
— Porra… aperta pra caralho.
Aí começou a foder. Sem rodeio. Estocada fundo, batendo a pelve na minha bunda, a mão segurando meu quadril com força. Eu gemia alto, metade dor, metade prazer. Cada vez que ele enfiava fundo eu sentia o pau latejando dentro. Ele aumentou o ritmo. A cama batia na parede. O barulho era obsceno — pele batendo em pele, gemido, a cama rangendo.
Ele puxou meu cabelo pra trás, me forçando a arquear mais.
— Fala que gosta.
— Gosto… porra, gosto…
Ele riu, um riso baixo, e meteu mais forte. Uma das mãos desceu e apertou meu pau, masturbando no mesmo ritmo das estocadas. Eu estava prestes a gozar. Ele sentiu.
— Não goza ainda.
Tirou a mão. Continou me fodendo. Eu estava tremendo, o pau latejando, a porra quase saindo. Ele parou de repente, tirou o pau, me virou de costas de novo e se posicionou entre minhas pernas. Enfiou de novo, agora de frente, as mãos segurando minhas coxas abertas. Olhava pra mim enquanto fodia. A luz do abajur iluminava meu peito suado, meu pau batendo contra a barriga, a cara que eu fazia.
— Olha pra mim quando gozar.
Ele acelerou. As estocadas ficaram mais curtas, mais brutais. Eu não aguentei. Gozei sem tocar no pau, a porra jorrando no meu peito, no meu pescoço, gemendo o nome dele. Ele continuou metendo enquanto eu gozava, apertando o cu em volta do pau dele. Poucos segundos depois ele puxou o pau, tirou a camisinha e gozou na minha barriga e no peito, gemendo baixo, o corpo travando.
Ficamos ali uns minutos, ofegantes. A porra escorrendo, o cheiro de sexo no ar. Ele se jogou ao meu lado, ainda respirando pesado.
— Porra… — foi tudo que ele falou.
Eu fiquei olhando pro teto. A baixa autoestima ainda sussurrava que amanhã ele ia sumir, que eu era só uma novidade, que ninguém ficava. Mas o corpo dele quente do meu lado, a mão dele descansando na minha coxa, o fato de ele não ter me pedido pra ir embora… tudo isso era novo demais pra ignorar.
Ele não falou nada de “quero te ver de novo” naquela hora. Só ficou ali. Depois de um tempo se levantou, foi no banheiro, voltou com uma toalha úmida e jogou em mim.
— Se limpa. Tá fedendo a porra.
Eu ri. Pela primeira vez na noite, ri de verdade.
Ele deitou de novo, pegou o celular, rolou alguma coisa. Eu fiquei quieto. A cabeça ainda estava um caos. Parte de mim queria levantar e ir embora antes que a rejeição viesse. Outra parte queria ficar.
Depois de uns minutos ele falou, sem tirar o olho do celular:
— Você fuma?
— Às vezes.
Ele levantou, pegou um cigarro, acendeu, passou pra mim. Eu puxei. A fumaça desceu queimando.
A gente ficou ali, dividindo o cigarro, em silêncio. Não era um silêncio pesado. Era só… silêncio.
Quando acabou o cigarro ele apagou no cinzeiro e falou:
— Pode ficar se quiser. Eu acordo cedo, mas não ligo.
Eu fiquei.
Pela primeira vez em muito tempo eu não voltei sozinho. Dormi com alguém do meu lado. E quando acordei no meio da madrugada e vi o perfil dele iluminado pela luz fraca da rua, eu não senti o peso de sempre no peito. Senti outra coisa. Algo pequeno, frágil, perigoso.
Esperança.
E isso, pra mim, ainda era a parte mais estranha de todas.

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Ficha do conto

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thiagop

Nome do conto:
Caio, o feio

Codigo do conto:
276112

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
01/11/2026

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