Clara chegava meia hora antes todos os dias. Não porque fosse especialmente dedicada ao estágio, mas porque gostava da quietude do escritório vazio. O ar-condicionado estava ligado, deixando o ambiente mais frio que no decorrer do dia. O silêncio era quase palpável e o cheiro de café fresco pairava porque ela mesma preparava a cafeteira. Tudo isso era pretexto. O verdadeiro motivo era ele. Rafael entrava exatamente às 8h37. Sempre. Nem um minuto antes, nem um depois. Paletó impecável, barba rente, olhar que atravessava as pessoas sem se deter em nenhuma. Ele dizia “bom dia” no plural, para o ambiente, nunca olhando diretamente para ela. Respondia e-mails com uma economia de palavras que beirava a grosseria educada. Quando passava pela mesa dela para pegar algo na impressora, o perfume dele — algo seco, amadeirado, caro — roçava a nuca de Clara como uma ameaça que nunca se concretizava. E era exatamente isso que a destruía. Ele não flertava. Não sorria mais para ela do que sorria para a planta da recepção. Não fazia comentários sobre a saia nova, sobre o batom mais escuro, sobre o decote que ela vinha usando um botão a mais aberto a cada semana. Nada. Absolutamente nada. E era esse nada que a deixava encharcada antes mesmo do meio-dia. Naquela tarde de quinta-feira o prédio inteiro tinha saído mais cedo por causa de uma manutenção no elevador. Rafael ficou até mais tarde revisando um contrato. Clara também. Claro que ficou. Quando ouviu a porta da sala dele se fechar e os passos dele se aproximarem do corredor, ela já estava com a calcinha de lado, dois dedos pressionando o clitóris em círculos lentos, quase preguiçosos. A cadeira giratória rangeu de leve. Ela não parou. Ele passou. Nem olhou para dentro da baia dela. Apenas atravessou o corredor com o celular na orelha, falando baixo sobre prazos e multas. A voz grave, monocórdia, profissional. A voz de quem não tem tempo nem tesão sobrando para notar que uma estagiária de 23 anos está se masturbando a cinco metros dele. Clara mordeu o lábio com força. Apertou mais os dedos. Imaginou — não que ele entrasse na baia dela, não que ele a puxasse pela nuca e a fodesse contra a mesa. Não. Ela imaginava exatamente o que estava acontecendo agora: ele indiferente. Ele seguindo em frente. Ele nem desconfiando. Ele continuando a vida dele sem jamais saber que o simples fato de não querer ela a fazia gozar mais forte do que qualquer toque jamais conseguiria. Ela abriu mais as pernas sob a mesa. A saia subiu até o quadril. O tecido da calcinha já estava grudado, escorregadio. Ela enfiou dois dedos de uma vez, imaginando o som que a cadeira fazia enquanto ele passava de novo — porque ele sempre voltava para pegar o casaco, ou o notebook, ou qualquer coisa. E toda vez era igual: ele não olhava. Não hesitava. Não percebia o cheiro doce e salgado que já tomava conta da baia pequena. Quando ouviu os passos dele retornando, ela gozou. Não foi um orgasmo silencioso. Foi daqueles que fazem a barriga tremer, a coxa se contrair, o ar ficar preso na garganta. Ela deixou escapar um gemido curto, rouco, abafado contra o antebraço. Os dedos ainda dentro dela pulsavam junto com o canal que se fechava em espasmos. A calcinha ficou encharcada até a altura da virilha. Rafael passou de novo. Dessa vez ele parou por meio segundo na entrada da baia. Clara congelou, os dedos ainda dentro da calcinha, o coração na garganta. Ele apenas esticou o braço e pegou a caneca que ela tinha deixado na divisória. — Boa noite, Clara — disse, sem emoção, sem olhar para ela, sem notar o rubor que subia pelo pescoço dela até as orelhas. E seguiu andando. Ela ficou ali, ofegante, dedos melados, coxas tremendo, olhando para o vazio do corredor por onde ele tinha desaparecido. E sorriu. Porque amanhã ele faria exatamente a mesma coisa. E era isso — só isso — que ela queria.
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