Do ressentimento ao prazer



A sala estava fria demais naquela noite de outubro, cruzei as pernas sobre a carteira, a bermuda jeans as minhas coxas grossas enquanto o ar condicionado zumbia no teto.

Minha garganta começou a fechar, comecei a tossir, olhei em volta e todos os alunos quietos, concentrados. Então a porta da sala abriu, e um homem de pele morena de camisa polo azul marinho que escondia uma barriga que talvez denunciava cervejinhas no fim de semana, calça social gastas no joelho, e um tenis cinza entrou.

Ele ergueu os olhos e os nossos olhos se encontraram, nesse hora o ar que saiu dos meus pulmões saiu com dificuldade, era como se alguém tivesse pisados nos meus peitos.

— Boa noite, pessoal — murmurou o homem, a voz arrastada.

— Aluno novo, suponho. disse o professor

— Sim, precisei mudar de turno. Me chamo Cristovão

— Ok cristovão, pode se sentar

Ele continuou andando e ocupou a única carteira vazia: a que ficava exatamente ao meu lado.

O homem ficou me olhando, me encarando e eu simplesmente ignorei a sua presença. Pouco depois o professor fez a chamada

"Cristovão Reis do Nascimento?" "Presente." respondeu ele

Ouvir aquela voz, a presença dele perto de mim despertou muitas memórias

A ausência dele no hospital. A minha mão que ele não segurou diante do caixão.

Pouco depois chegou minha vez

“Silvana Reis do Nascimento” “presente” respondi

E em seguida me levantei e fui embora. Disse ao professor que não estava bem.

Quando cheguei em casa fiquei pensando em como faria para aguentar a presença dele, menos mal que as aulas eram tres vezes na semana( segunda, quarta e sexta).

Pensei em trocar de turma, mas só iria abrir turma no próximo semestre.

Então veio a próxima aula, e a próxima e a próxima. A presença dele incomodava, mas ele ficava quieto, não me dirigia a palavra.

Até que um dia o professor anunciou que formaríamos duplas para o projeto final e leu "Cristovão e Silvana", eu quase ri. Quase chorei. Fiz as duas coisas disfarçando com um acesso de tosse.

O intervalo chegou. Fui para o corredor e encostei-me na parede de tijolos aparentes, os braços cruzados sob os seios, a boca carnuda apertada numa linha.

Ele me seguiu.

— Silvana..
.
— O quê, Cristovão? — A palavra saiu como cuspe.

— Eu tentei. Mandei mensagens, liguei...

— É, devia ter entendido que eu não queria falar com o senhor.

Franzi as sobrancelhas fechando a cara.

— Minha mãe morreu sozinha naquela cama de hospital. Sozinha. Você sumiu quando ela mais precisava.

Quando eu mais precisava, quando nós mais precisavamos

Ele passou a mão no rosto magro. A mandíbula tremia. Ele olhou para o chão de cimento polido, os sapatos surrados.

— Eu era um merda — disse baixo.

— Eu tava afundado num buraco que nem eu entendia.

Soltei uma risada curta, amarga.

— Essa é sua desculpa?Deixa um monte de responsabilidades nas costas de um menina de dezoito anos?

— Não é desculpa. É..

— É o que pai!!?

Há quanto tempo aquela palavra não sai da minha boca, tinha dez anos que aquela palavra tinha sido apagada do meu vocabulário.

Ele baixou a cabeça e foi saindo de perto de mim devagar.

Na aula seguinte, o professor deu mais detalhes de como seria o trabalho. Logo, nas semanas seguintes, o projeto nos obrigou a nos reunirmos mais do que apenas dos três dias da semana que tínhamos aula.

Num sabado chamei ele para meu apartamento, lembro que era por volta das 16 horas, caia uma chuva fraca em salvador.

Eu vestia uma blusa verde cor abacate de alcinha, ela era curta, não chegava nem a altura do umbigo.

Era de proposito, adorava exibir meu piercing na barriga.

também vestia um shortinho branco colado ao corpo que marcava bem minha bunda que era bem volumosa, tinha bastante carne.

Quando abri a porta meu pai surgiu vestido com uma blusa branca de botão, calça cinza linho fino e uma sandalia marrom aberta

“Entra”

Falei fechando a cara.

Ele entrou devagar, de cabeça baixa.

Fomos até a mesa, onde eu já tinha colocado alguns livros.

Sentamos.

“Vamos direto ao ponto pra terminarmos rápido”

Ele balançou a cabeça positivamente.

A conversa se restringia ao trabalho, cada um compartilhando o seu conhecimento e dando a sua opinião de qual caminho seguir.

Passou por volta de uma hora e meia desde que tínhamos começado a estudar quando decidimos fazer uma pausa para comermos alguma coisa.

Fui até a cozinha preparar um café, de lá notei ele parado de frente algumas fotos minhas na estante

Ele olhava calmamente cada retrato meu, ele colocava as mãos para trás enquanto a cabeça virava de um lado para o outro fazendo uma espécie de varredura.

Me aproximo da mesa com a garrafa de café, ele se vira na minha direção

“Estou muito orgulhoso de você filha”

Sem saber ao certo que responder eu digo: “obrigada”

“Falta pouco para você se formar em jornalismo!?”

“Sim, se tudo dê certo, ano que vem”

“Vai dar certo”

Peguei duas xicaras, servi o café somente pra mim e sentei a mesa.

Ele saiu de perto da estante e sentou junto comigo.

“Não coloquei para o senhor, pois não sabia se seu gosto tinha mudado”

“Não, não mudou. Continuo gostando do café com bastante açúcar. Um chá, como sua mãe costumava dizer”

Fechei a cara no mesmo instante, achava absurdo aquela palavra sair da boca dele.

ele olhou para mim e disse

“Você fez igualzinho”

“O que!?” perguntei

“Quando sua mãe estava insatisfeita com algo, fazia exatamente a mesma expressão que você fez”

Eu realmente era fisicamente parecida com ela, cabelos pretos cacheados, grande e volumosos, a boca carnuda, olhos pretos grandes e nariz achatado.

“O senhor deve odiar isso, não!!?”

“o que!?”

“eu ser parecida com ela!”

“claro que não. Na verdade eu fico muito emocionado em ver como você ficou cada vez parecida com ela com passar do tempo”

“emocionado hein, onde esse sentimento tava dez anos atrás quando o senhor deixou uma filha de 18 anos praticamente sozinha cuidando da mãe doente”

Ele baixou os olhos para a mesa

Os dedos começaram a esfregar um no outro. Então ele levantou a cabeça, eu podia ver nos olhos dele que havia algo partido ali dentro.

— Sabe, na minha infância, muitas vezes só havia arroz e mortadela em casa. Eu descobri, muitos anos depois, que meus pais diziam que já tinham jantado... só para que eu pudesse comer.

Minha garganta começou a secar

Ele fez uma pausa

— As vezes contavamos com ajuda de vizinhos. Teve oportunidades que eu me sentia sem esperança..

— Outras humilhado. Seja pela cor da pele ou por falta de estudo.

— Também não consegui alcançar meus sonhos, me frustrei e fui guardando rancor dentro de mim, me tornando aquela pessoa que você conheceu, amarga e insensível.

— E mesmo quando tinha algum êxito na vida, um emprego decente, sua mãe e você eu não me alegrava

Os olhos dele começaram a marejar

— O senhor nunca me contou essa parte da sua vida

— Nem a sua mãe sabia de tudo a respeito disso

Meu nariz começava a entupir, meus olhos a ficarem vermelhos

— Eu não estou contando isso pra você ficar com pena de mim. O que eu fiz quando sua mãe adoeceu não tem conserto. Eu fui fraco, covarde e falhei com você, deixando você com todo o peso.

— Eu só queria que você soubesse que não houve um único dia desses últimos dez anos em que eu não tenha acordado desejando voltar naquela porta... entrar naquele quarto... sentar ao lado da sua mãe... segurar sua mão... e ficar.

Uma lágrima começou a escorrer pelos olhos dele.

Eu nunca tinha visto meu pai chorar na vida.

— Me perdoe filha, por não ter ficado com você num momento tão dificil da sua vida

Olhei para mão dele sobre a mesa, vagarosamente fui aproximando a minha mão da dele.

Ele olhou minha mão cada vez mais próximo da dele

Nossas mãos entrelaçaram.

Sentia a pele dele envelhecida, os dedos calejados

Mas de repente muitas memorias vieram a minha mente

O corredor branco do hospital.

Minha mãe, cada dia mais fraca.Perguntando: "— O seu pai vem hoje?"

e eu respondendo a mesma mentira.

— Vem, mãe... ele só atrasou um pouquinho.

Sabendo que ele não viria.

O peito apertou com violência.

Ela retirou a mão como se tivesse encostado numa chapa quente.

As lágrimas começaram a cair antes mesmo que conseguisse falar.

— Eu...

Respirou fundo.

Me levantei

Precisava respirar.

— Por favor...

A voz saiu quase inaudível.

— Vai embora.

Ele levantou e antes de abrir a porta, voltou-se para mim

Quis dizer alguma coisa. Mas abriu a porta e foi embora.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
Do ressentimento ao prazer

Codigo do conto:
267083

Categoria:
Incesto

Data da Publicação:
13/07/2026

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