Esbravejou Alberto
“você ainda ta bravo com aquilo!!?”
“Não só com aquilo”
Alguns meses atrás eu acordei com sede e saí do quarto usando só uma camisa branca curta e calcinha bege para ir ao banheiro. A casa estava silenciosa, iluminada só pela luz fraca da cozinha.
Quando cheguei na cozinha, dei de cara com meu pai bebendo água.
Ele estava apoiado na pia, de camisa de botão aberta, um short azul frouxo cabelo bagunçado de sono e aquele jeito cansado de homem doente que não consegue mais descansar direito.
Nós dois levamos um pequeno susto um com o outro
— Pai? O senhor tá bem?
Ele sorriu fraco.
— Tô… só com sede.
Me aproximei do meu pai, peguei a garrafa das mãos dele e me servi um copo d´agua. Enquanto tomava o segundo gole, eis que surgi Alberto no corredor
Eu lembro até hoje do olhar dele passando de mim pro meu pai… e depois voltando pra mim.
“Alberto, eu já falei que foi por acaso, eu não sabia que ele tava acordado”
“Não é só isso, já falei.Você ta dedicando quase todo seu tempo para ele e quanto a mim? seu marido!!?”
Realmente eu fazia comida separada pro meu pai porque ele não podia comer sal, eu organizava os remédios dele, acompanhava-o às consultas, perguntava da pressão, sentava um pouco com ele na varanda lhe fazendo companhia.
Mas fazia isso porque sentia que ele precisava, mas para Alberto meu pai fazia-se de “coitadinho”
Certa vez ocorreu um episodio durante a noite onde Alberto tentou me abraçar na cozinha enquanto eu lavava louça. Ele me deu um cheiro no cangote,
pressionou seu quadril na minha bunda, podia sentir o pau dele latejando por debaixo do short
Então de repente, sem aviso, escuto um barulho vindo da sala.
“O que foi isso!!?”
“Não é nada, deve ter sido o vento que derrubou alguma coisa na sala”
“Não, meu pai ta lá”
“Ah não é possivel”
“Espera Alberto”
Me desvenciliei dele e fui correndo, minha suspeita se concretiza. Era meu pai no chão
“Pai, o que houve!!? o que aconteceu!!?
“Nada demais filha, deu uma tontura, tropecei no tapete e cai.”
“Senhor ta bem mesmo? bateu a cabeça!!?
Alberto olhava para nós dois com os braços cruzados.
“ Não, só ta doendo um pouco o joelho”
“Ta bem mesmo seu Valdo!!? qualquer coisa a gente vai no hospital!!”
“Tou foi só um susto”
Coloquei meu pai no sofá, ele mexeu a perna lentamente pra cima e para baixo verificando se nada tinha se quebrado, já que com a idade os ossos já não são
mais o mesmo
Episódios como esse se repetiam como em uma tarde, quando encontrei ele no sofá segurando o braço esquerdo.
— Pai!?
Ele fez uma careta.
— Só uma dorzinha.
Sentei ao lado dele na mesma hora.
— O senhor quer ir pro hospital?
— Não precisa.
Peguei a mão dele.
— Tem certeza?
Ele apertou minha mão devagar.
— Só fica aqui um pouco.
Então fiquei, para o descontentamento do meu marido, que olhando a cena do meu pai e eu de mãos dadas, se recolheu indo para o quarto, onde cansado de
me esperar caiu no sono.
Quando ele acordou no dia seguinte me chamou de lado e falou:
— Engraçado como sempre acontece essas coisas de passar mal
— O que você quer dizer com isso?
Ele me encarou.
— Nada.
— Não, fala.
Alberto passou a mão no rosto, irritado.
— Eu acho que teu pai sabe muito bem chamar tua atenção.
Meu sangue ferveu.
— Você tá dizendo que ele tá fingindo?
— Eu tô dizendo que ele percebeu que basta reclamar um pouco que tu larga tudo por causa dele.
De repente escutamos passos e meu pai surgi na sala
Meu pai abaixou a cabeça imediatamente dando a entender que ele ouviu o que conversavamos
Aquilo me deu raiva.
— Você perdeu a noção.
Alberto riu sem humor.
— Claro. O vilão sou eu.
— Ele tá doente!
— E eu tô cansado!
A voz dele ecoou pela sala.
— Desculpa se estou atrapalhando vocês
Meu pai foi saindo de mansinho claramente desconfortável
— Não, pai.O senhor não é nenhum incomodo
Alberto apontou para mim.
— Tá vendo? É sempre assim agora.Ele dando uma de coitadinho
Virei para ele furiosa.
— Porque você tá agindo como uma criança!
— Criança!?
Ele deu um passo na minha direção.
— Eu chego em casa e minha mulher só da atenção a outro homem
O silêncio caiu pesado.
Meu pai fechou os olhos lentamente.
Eu senti vergonha.
Raiva.
E incredulidade.
— Você tá ouvindo o absurdo que tá falando?
Alberto respirava pesado.
— Eu tô vendo o que tá acontecendo nessa casa.
— Ele é meu pai!
— E parece que eu deixei de ser teu marido faz tempo!
Aquilo me atingiu fundo.
Porque uma parte de mim sabia que havia alguma verdade ali.
Mas ouvir daquele jeito…
Na frente do meu pai…
Era cruel.
Meu pai caminhou lentamente até o quarto.
E eu fiquei parada na sala, olhando para Alberto.
Sem saber mais como salvar aquela casa que parecia desmoronar um pouco mais a cada dia.
Alberto saiu para outro comodo da casa e eu fiu até o quarto do meu pai
Bati de leve na porta.
— Pai?
A voz dele veio baixa.
— Entra.
Abri devagar.
Ele estava sentado na cama, os óculos baixos no rosto enquanto fingia ler um jornal velho.
Mas dava para perceber que não estava lendo nada.
Sentei ao lado dele.
— Pai…
Ele suspirou sem me olhar.
— Não precisa pedir desculpa por ele.
Mesmo assim pedi.
— Desculpa pelo Alberto.
Meu pai fechou o jornal lentamente.
— Ele tá cansado, filha
Aquilo me surpreendeu.
— O senhor ainda defende ele?
Ele deu um sorriso pequeno.
— Homem quando se sente deixado de lado fica bruto.
Baixei os olhos.
Talvez ele tivesse razão.
Meu pai tocou minha mão devagar.
— Você tá tentando cuidar de todo mundo… mas ninguém aguenta isso por muito tempo.
Senti vontade de chorar.
— Eu só queria que vocês se entendessem.
Ele apertou minha mão com carinho.
— Vem cá.
Me puxou devagar para um abraço.
E eu aceitei.
Encostei a cabeça no peito dele por alguns segundos, sentindo aquele cheiro antigo de sabonete e remédio.
Foi exatamente nesse momento que Alberto apareceu na porta.
Eu não vi.
Só percebi quando meu pai soltou o abraço lentamente.
Olhei para trás.
Alberto estava parado no corredor.
Nos observando.
O rosto duro.
Frio.
Meu coração afundou.
— Alberto
Ele soltou uma risada curta.
Sem humor nenhum.
Saí do quarto do meu pai com o coração pesado e fui procurar meu marido pela casa
Encontrei ele sentado nos fundos da casa, no escuro, fumando mais um cigarro. A ponta vermelha brilhava entre os dedos dele enquanto encarava a rua em
silêncio.
Sentei devagar ao lado dele.
— Alberto…?
Ele soltou a fumaça lentamente.
— Me deixa no meu canto hoje, por favor.
A frase saiu cansada.
Sem grito.
Sem raiva.
E aquilo me assustou mais do que qualquer discussão.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
Depois apenas assenti.
— Tá bom.
Levantei e voltei para dentro.
Respeitei a escolha dele.
Nos dias seguintes, Alberto ficou ainda mais silencioso.
Observava tudo.
Cada detalhe.
Cada movimento da casa.
E eu percebia.
Percebia o olhar dele me acompanhando quando eu separava os remédios do meu pai pela manhã.
Quando eu media a pressão dele.
Quando eu perguntava se ele tinha dormido bem.
Uma tarde, meu pai reclamou de dor de cabeça.
Encontrei ele sentado no sofá com a mão na testa.
— Pressão de novo? — perguntei preocupada.
Ele assentiu devagar.
Peguei o aparelho.
Medi.
Alta.
Fui buscar água, organizei os remédios e depois sentei atrás dele no sofá.
Comecei a massagear lentamente as têmporas dele e a nuca, tentando aliviar a tensão.
— Melhorando? — perguntei.
— Um pouco… suas mãos ajudam.
Foi nesse instante que percebi Alberto parado na cozinha.
Nos olhando.
Não falou nada.
Só desviou o olhar e saiu.
a distância entre nós só aumentava, eu sentia isso.
Até que numa noite ele entrou no quarto enquanto eu dobrava roupas.
O rosto dele estava estranho.
Calmo demais.
— Patricia.
Levantei os olhos.
— Oi amor?
Ele colocou as mãos nos bolsos da calça.
Evitando olhar diretamente para mim.
— Conversei com um amigo corretor hoje.
Franzi a testa.
— Tá… e daí?
Ele respirou fundo.
— Ele conseguiu uma kitnet pra mim.
Senti o chão desaparecer sob meus pés.
— Como assim?
Ele finalmente me olhou.
Os olhos cansados.
Tristes.
— Vou ficar lá por um tempo.
Larguei a roupa na cama.
— Como assim!!?
— Até teu pai melhorar.
Meu coração começou a bater forte.
— Você tá falando sério?
— Tô.
Aproximei-me dele imediatamente.
— Você vai sair de casa por causa disso?
Ele deu uma risada fraca.
— Isso?
Abriu os braços devagar.
— Alberto, pelo amor de Deus…
— Não briga comigo agora.
A voz dele saiu baixa.
Quase quebrada.
— Eu só tô cansado.
Senti meus olhos arderem.
— A gente pode resolver isso.
Ele balançou a cabeça lentamente.
— Eu acho que não enquanto as coisas estiverem assim.
Fiquei parada olhando para ele.
Sem saber o que dizer.
Porque uma parte de mim entendia a dor dele.
Mas outra parte não conseguia aceitar aquela escolha.
Alberto pegou algumas roupas do armário calmamente.
Como se já tivesse tomado a decisão fazia tempo.
E talvez tivesse mesmo.
E eu fiquei sozinha no quarto.
Ouvindo, ao longe, a tosse fraca do meu pai atravessando o corredor, enquanto meu marido sai do quarto.
Tento acompanha-lo, impedi-lo
"Henrique Alberto volta aqui"
"Me deixa Patricia"
"Não tome atitudes impensadas"
"Eu pensei muito bem"
Ele abre a porta, passa por ela me deixando incredula. Não imaginava que isso iria acontecer. Ao olhar para trás vejo meu pai parado me encarando
CONTINUA...