O seu Osvaldo abriu o portão com o cadeado na mão, sem pressa, o chapéu de palha escurecido de suor na aba.
— Cê chega cedo. Bom. Os bicho tá na área de trás, precisa trocar a água duas vez por dia, senão eles derrubam o tambor.
Ele falou como quem já tinha explicado aquilo pra outros cinco moleques antes de mim. Eu tinha vinte e dois anos, magro de dar dó, camiseta larga no ombro, e ali no meio do nada, com uma mochila com duas mudas de roupa e um pacote de biscoito, me senti do tamanho de uma criança.
— Eles são brabo?
— São fila. — Ele deu de ombros, como se aquilo respondesse tudo. — Não são brabo com quem mora. Só não deixa eles te derrubar.
Riu de um jeito curto e subiu na caminhonete. Antes de sair, apontou o queixo pros dois vultos que já se mexiam atrás da grade do canil.
— Esse grandão ali é o Trovão. O outro é o Bala. Filhote de duas ninhadas diferentes, mas cresceram junto. — A caminhonete pegou. — Domingo à noite eu volto. A casa tá aberta, tem comida na geladeira.
E foi embora, deixando uma nuvem de poeira que ficou suspensa no ar por um tempão depois que o som do motor já tinha sumido.
Eu fiquei parado, a mochila pesando no ombro, e os dois cachorros me olhando através da tela. Eram enormes. Não enormes de altura só — enormes de massa, de osso, de pescoço. Aquele tipo de cachorro que não late muito, que só fica ali te medindo com o olho amarelado e a cabeça baixa, e você sente que ele já sabe tudo o que precisa saber de você antes de você abrir a boca.
O Trovão era fulvo, com a máscara preta descendo até o peito, e babava. Um fio grosso e elástico pendia do canto da boca dele, balançando devagar com a respiração. O Bala era tigrado, escuro, as listras se perdendo na sombra do canil, e era maior. Não muito mais alto, mas mais largo, mais pesado, com um peito que parecia uma tábua curvada debaixo da pele.
Abri a porta do canil. Os dois avançaram juntos e eu recuei um passo por instinto, mas não pularam em mim. Passaram rente às minhas pernas, o pelo duro roçando no meu jeans, e foram direto pro tambor de água, derrubando metade no chão de terra batida, que escureceu e cheirou a barro na hora.
Eu soltei o ar que estava prendendo e ri de mim mesmo.
A casa era pequena, de tijolo aparente, com um ventilador de teto que girava tão devagar que mais empurrava o calor do que tirava. Larguei a mochila na cama de solteiro, tirei a camiseta, e o ar morno encostou na minha pele. Magro, quase sem pelo, eu parecia um daqueles bonecos de madeira que o povo põe na horta pra espantar passarinho. O espelho do banheiro me devolveu isso: costelas aparecendo, a linha do quadril funda, o peito liso. E, entre as pernas, o volume do meu pau meio duro de cansaço e de calor, médio, comum, sem nada que fizesse ninguém virar a cabeça na rua.
Lá fora, um dos cachorros uivou curto, e o som atravessou a parede fina e entrou em mim pelo esterno.
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A tarde caiu devagar. Eu enchi o tambor, varri o canil, separei a ração. Eles comeram com o focinho enterrado na tigela, e eu fiquei agachado a um metro de distância, olhando. O Trovão levantou a cabeça no meio da comida, me encarou, e voltou a comer. O Bala nem levantou. O som da mastigação era molhado, grosso, e o cheiro de ração úmida se misturava ao cheiro deles, que era forte e quente, um odor de pelo sujo e baba e terra que não é ruim, é só animal, é só vivo.
Quando escureceu de vez, acendi a luz da varanda. Os dois se deitaram no chão de cimento, um de cada lado do meu pé, e o calor que subia deles era o calor de dois fornos pequenos. Eu me sentei na esteira, encostado na parede, e o Trovão colocou o queixo em cima do meu tornozelo.
Pesado. Morno. A baba escorreu e molhou o osso do tornozelo, e ele suspirou, e o suspirou dele levantou o meu pelo do braço inteiro.
Eu sempre tive curiosidade. Aquele tipo de curiosidade que a gente não conta pros amigos porque parece coisa de gente esquisita. Já tinha lido, já tinha visto vídeo, e sempre ficava naquela dúvida: será que é bom mesmo, será que dá pra sentir, será que o cachorro entende. E ali, com o focinho dele apoiado no meu pé, com aquele cheiro todo entrando em mim, a curiosidade virou outra coisa. Virou uma coceira nas mãos.
Passei a mão na cabeça dele. O pelo da cabeça é curto e áspero, e por baixo tem a pele quente, e ele empurrou a cabeça contra a minha mão, pedindo mais, os olhos quase fechados. Fui descendo, atrás da orelha, no pescoço grosso, e ele virou o focinho pro meu braço e começou a lamber.
A língua dele é larga, áspera como lixa molhada. Passou uma vez, duas, e o braço ficou brilhando de saliva. Ele lambeu o pulso, a dobra do cotovelo, subiu pro bíceps, e o som era aquele *slap* úmido e rítmico, e eu comecei a rir baixo de nervoso, mas não tirei o braço.
— Tá bom, tá bom.
Ele parou. Me olhou. E aí, como se tivesse entendido o convite, enfiou o focinho debaixo da barra da minha camiseta.
O focinho frio e molhado encostou na minha barriga e eu me encolhi todo, rindo, mas ele insistiu, empurrando, e a língua veio junto, lambendo o meu estômago, a cintura, o osso do quadril que aparece quando eu me sento. Eu levantei os braços e deixei. A camiseta subiu sozinha até o peito e o Trovão lambia sem parar, a língua raspando o mamilo, e aquilo arrepiava e endurecia, e a barriga dele encostava na minha coxa, quente, e o coração dele batia rápido contra o meu joelho.
Foi aí que eu senti, no canto do olho, o Bala se levantar.
Ele veio devagar, sem pressa, e enfiou o focinho no meu pescoço pelo outro lado. Duas línguas. Uma na barriga, uma atrás da orelha, na nuca, na mandíbula. O hálito deles era quente e tinha gosto de ração e de carne, e eu virava a cara pra respirar e a língua do Bala pegava o meu queixo, o meu lábio, e eu abria a boca sem querer e sentia a aspereza na gengiva.
Eu estava duro. Duro de doer, dentro do jeans, e o cós apertava, e cada lambida dava um puxão no meu pau como se tivesse fio.
Puxei o botão, abaixei o zíper. Só pra aliviar a pressão, eu disse pra mim mesmo. Só pra aliviar.
O Trovão desceu. O focinho dele passou pela minha virilha, farejando, bufando, e o ar quente atravessou o algodão da cueca e eu gemi baixinho. Ele empurrou. Enfiou o focinho dentro da cueca, o queixo por cima do meu pau, e a língua veio depois, raspando o saco, a base, o lado de baixo do pau, e eu bati a cabeça na parede e fiquei com a boca aberta sem som nenhum.
Aquilo era melhor do que eu tinha imaginado. Muito melhor. A língua dele é larga o suficiente pra cobrir quase tudo de uma vez, e áspera do jeito certo, e ele lambia com uma vontade que parecia fome. O Bala veio por cima do meu ombro e enfiou a língua na minha boca, e eu chupei a língua de um cachorro pela primeira vez na vida, e era grossa e morna e tinha gosto de metal e de bicho.
O meu pau escorria. O líquido escorria pelo lado e o Trovão lambia, e o queixo dele ficou todo molhado, e a baba dele se misturava com a minha e pingava na minha coxa.
Eu passei a mão no pau e bombei devagar, e ele acompanhou com a língua, e eu senti o azedo subindo pela base, aquele aperto que avisa que falta pouco, e apertei a base pra segurar.
Não queria gozar ali. Não ainda.
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Foi quando o Trovão virou de lado.
Ele subiu em cima de mim de um jeito desengonçado, as patas dianteiras escorregando no cimento, e eu me virei de quatro por instinto, sem pensar, porque era o jeito que o corpo dele pedia. E aí ele encaixou.
A pata dele fechou no meu quadril. O peso caiu todo nas minhas costas e eu tive que travar os braços pra não bater de cara no chão. O peito dele era uma parede quente nas minhas costas, e ele começou a bombar no vazio, procurando, e o pau dele batia na minha bunda, no cós do jeans abaixado, e cada batida era uma pancada seca de carne quente.
Eu abaixei mais, empinei, e a ponta dele encostou. Não no buraco. No meio da bunda, no vão, escorregando no suor e na baba.
E então ele achou.
O primeiro empurrão foi de raspão, a ponta entrou e saiu. O segundo pegou. E o terceiro...
Eu gritei.
Não foi um gemido, foi um grito mesmo, curto e agudo, de dor, e eu cravei os dedos no cimento e o Trovão não parou, ele empurrou mais, e a sensação era de estar sendo rasgado por dentro, de estar sendo aberto com uma estaca morna. Não é como dedo, não é como nada. É grosso de um jeito que não tem comparação. É quente e duro e vivo, e tem aquele osso por dentro que faz a pressão de dentro pra fora, e eu senti o esfíncter cedendo devagar, teimoso, e cada milímetro que entrava era um choque que subia pela coluna e estourava atrás dos meus olhos.
— Ai, ai, ai — eu repetia, sem vergonha nenhuma, a boca encostada no próprio braço.
Ele parou quando não cabia mais. Ficou ali, tremendo, o peso todo em cima de mim, a respiração dele um fole molhado no meu ouvido, e eu senti o pau dele pulsar dentro de mim, aquela coisa viva latejando, e senti também o meu pau pingando no chão, duro ainda, duro mais.
O corpo humano é traiçoeiro. A dor não passou, mas mudou de lugar. Virou uma coisa quente, uma coisa larga, uma coisa que dava pra aguentar. E embaixo dela tinha outra coisa, um formigamento fundo, um prazer que não vinha do pau, vinha de dentro, e que cada tremor dele acordava mais.
Ele começou a se mexer.
Curto no começo. Só um balanço de quadril, um vai e vem de dois dedos. E aí ele foi pegando ritmo, e o ritmo de cachorro é rápido, é picado, é uma sequência de estocadas curtas e duras que não te deixa respirar entre uma e outra. As bolas dele batiam na minha bunda com um som de palma molhada. A pata apertava o meu quadril. O peito dele empurrava as minhas costas pra baixo e eu já estava com o rosto quase no chão, a bochecha na esteira, o cimento raspando o meu joelho.
E doía. Doía e era bom. Doía e eu empurrava pra trás pra receber mais.
A baba dele escorria no meu ombro. Eu sentia o fio quente descendo pelo braço e não limpava. O cheiro dele estava em tudo, no ar que eu respirava, e eu estava com a cara enfiada na própria esteira e o cheiro de cachorro preenchendo a minha cabeça, e por um instante eu tive a sensação absurda de estar virando bicho também, de estar de quatro ali porque era o meu lugar.
Aí veio o nó.
Eu não sabia que era assim. Sabia da existência, tinha lido, mas ler não é nada. A base do pau dele inchou e aí o negócio ficou preso, e o esticão foi de arrancar o ar, e eu gritei de novo, e o Trovão parou de estocar e ficou só tremendo e empurrando curto, e cada empurrão puxava um pedaço de mim pra fora e enfiava de volta.
E foi aí que o Bala apareceu.
Ele veio por baixo, do lado, e enfiou o focinho debaixo da minha barriga, procurando o meu pau. Achou. E começou a lamber.
Eu não tinha mais estrutura nenhuma. Estava de quatro, preso pelo pau de um fila, com o outro lambendo o meu pau por baixo, e aí o primeiro orgasmo veio sem eu pedir, sem eu avisar, sem eu nem perceber que estava chegando, e foi um orgasmo que arrancou de mim um som que não era nem gemido nem grito, era um negócio quebrado, e o meu pau pulsou e jorrou na boca do Bala, e ele continuou lambendo, lambendo o esperma, lambendo o pau, lambendo o saco, e eu me tremia todo e o Trovão tremia todo em cima de mim e ninguém se mexia mais.
Ficamos assim.
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Vinte minutos. Eu contei depois, pelo relógio da cozinha, mas ali dentro não tinha tempo. Tinha a respiração dele no meu ouvido, e o coração batendo contra as minhas costelas por dentro do peito dele, e o peso, e o calor, e aquele nó grosso me prendendo como um cadeado de carne.
A perna começou a adormecer. Eu mudei de posição, o mínimo possível, e o pau dele se mexeu dentro de mim e eu gemi. A dor tinha virado uma coisa surda, latejante, quase boa. O meu pau tinha amolecido e o Bala ainda dava uma ou outra lambida nele, de vez em quando, sem compromisso.
O Trovão gemia. Um gemido fino, agudo, que não combina com o tamanho dele, e ele empurrava curto, tremendo, e cada empurrão mexia no nó e me fazia fechar os olhos.
Eu passei a mão pra trás, devagar, e encostei na barriga dele. Quente, dura de tônus, molhada de baba. Ele empurrou a barriga contra a minha mão. Eu fiquei ali, sentindo ele pulsar, sentindo o nó ceder um pouco e voltar, e o formigamento fundo foi voltando, subindo, e o meu pau começou a endurecer de novo contra a esteira.
O Bala percebeu antes de mim. Veio, enfiou o focinho debaixo do meu quadril, e a língua dele achou o meu pau de novo, e eu me empurrei contra o chão, esfregando, e a aspereza da esteira no meu mamilo, a aspereza da língua no meu pau, o peso do cachorro nas minhas costas, tudo junto, e eu gozei de novo, e dessa vez foi longo e mole e eu chorei um pouco, de olho fechado, sem soluço, só a água escorrendo.
O nó desinchou devagar. O Trovão saiu com um som úmido e eu senti o vazio, e senti o que escorreu atrás, quente, descendo pela parte de dentro da coxa.
Ele desceu de cima de mim e ficou lambendo o próprio pau, e eu desabei de lado no cimento, as pernas bambas, o cu latejando, o rosto no chão.
E o Bala já estava em cima.
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Ele não esperou. Subiu em cima do meu corpo caído, e a pata dele achou o meu quadril e fechou, e eu senti o peso — mais peso, mais que o outro, mais que tudo — e senti o pau dele bater na minha coxa.
Era maior. Eu virei a cabeça e olhei por baixo do meu braço. Era mais grosso, mais escuro, mais comprido, e a ponta já estava vermelha e molhada de baba e escorria.
— Não, não, não — eu falei, e era mentira, e ele sabia.
Ele achou o buraco de primeira. Talvez porque já estava aberto. Talvez porque o esperma do outro serviu de lubrificante. Ele empurrou e entrou um pedaço de uma vez só, e eu gritei de novo, e o grito saiu abafado porque eu estava com a cara no chão.
Doeu mais. Doeu de um jeito diferente. O outro tinha sido uma estaca fina abrindo caminho; esse era uma rolha, uma coisa que preenchia tudo e esticava as paredes até o limite, e eu senti o esfíncter fechar em volta do pau dele e ele forçar contra isso, e aí entrou mais, e mais, e eu cravei as unhas no cimento e uma delas quebrou.
Ele parou quando o pelo do saco encostou na minha bunda. Ficou ali, respirando, e o peito dele descia e subia contra as minhas costas, e eu senti o pau pulsar dentro de mim, e a pulsação dele era mais forte que a do outro, mais grossa, e eu sentia cada batida na parede do meu cu como se fosse um soco pequeno.
— Meu Deus — eu falei, e a minha voz saiu fina.
Ele começou a estocar.
O ritmo dele era mais pesado. Menos picado, mais fundo, cada estocada empurrava o meu corpo pra frente no cimento, e eu tinha que firmar o pé na parede da varanda pra não escorregar. O som era o mesmo *ploc* molhado de bolas na bunda, mas mais grave, e por baixo tinha o som dele, um rosnado baixo, contínuo, que vibrava no meu esterno.
E eu senti o pau dele passar por um lugar que o outro não tinha alcançado. Um lugar fundo, que fez o meu pau endurecer de uma vez, de doer, e eu gemi e empurrei pra trás sem querer.
Ele pegou o ritmo daquele empurrão. Era isso que ele queria. Ele começou a bater naquele ponto toda vez, e o prazer vinha em ondas grossas, e eu já não sabia se estava gemendo de dor ou de gozo, e não importava.
A baba dele pingava na minha nuca. Eu sentia os pingos quentes e o ar da noite esfriando em cima deles. A pata dele me apertava tanto que ia deixar marca. O focinho dele estava ao lado do meu rosto, e ele bufava, e o hálito quente batia na minha orelha, e num ímpeto eu virei a cabeça e encostei a boca no focinho dele, e ele lambeu a minha boca, e eu chupei a língua dele enquanto ele me fodia.
O orgasmo veio de longe, sem aviso, subindo pelas pernas. Eu senti a base do pau formigar e o saco apertar e aí o jato saiu, forte, e bateu na barriga dele por baixo e na minha própria coxa, e eu gritei com a boca na boca dele, e o Bala não parou, e continuou estocando, e o meu pau continuou pulsando e jorrando, e ele continuou, e eu passei daquele ponto em que gozar é bom pra um ponto em que é quase insuportável, e ele continuou.
E aí inchou.
O nó dele era maior. Enorme. Ele empurrou e o nó bateu no meu esfíncter e escorregou, e ele empurrou de novo e escorregou, e na terceira vez ele forçou e o nó entrou, e eu senti o estalo do esfíncter fechando atrás dele, e foi como se alguém tivesse apertado um torniquete na minha alma.
Eu gritei até ficar sem ar. O grito virou chiado. As minhas pernas tremeram e cederam e eu caí de barriga de vez, e o Bala veio junto, e ficamos ali, no chão, e ele tremia todo e gemia aquele gemido fino e agudo, e o esperma dele jorrou dentro de mim, quente, muito, e eu senti escorrer por dentro, e ele empurrava curto, empurrava curto, empurrava curto.
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Eu fiquei deitado de barriga no cimento com um cachorro de quarenta quilos preso dentro de mim e a noite em volta cheirando a mato molhado e a baba.
A essa altura eu já não sentia mais dor. Sentia uma coisa entorpecida, cheia, quente. O peso do Bala em cima era quase confortável. Ele apoiou a cabeça nas minhas costas, entre as escápulas, e suspirou, e o suspirou dele mexeu no nó e eu gemi fraquinho.
O Trovão veio e deitou do meu lado, e colocou o queixo no meu braço, e ficou me olhando com aquele olho amarelado, e a língua dele pendia pra fora.
Eu estiquei a mão e cocei a cabeça dele. Ele fechou os olhos.
Ficamos ali um tempão. O relógio da cozinha tiquetaqueava atrás da parede. Um grilo começou num canto do quintal, e outro respondeu. Aos poucos a respiração do Bala desacelerou, e o nó começou a ceder, e ele escorregou pra fora com um som mole, e o vazio voltou, e com o vazio voltou tudo escorrendo, e eu senti na parte de dentro da coxa e não me mexi.
O Bala desceu e se sacudiu todo, e as orelhas bateram, e gotas de baba voaram em cima de mim.
Eu rolei de lado e me sentei. As pernas ainda tremiam. Fiquei olhando pra frente, pro mato escuro atrás da cerca, e ri sozinho, alto, no meio do silêncio.
O Trovão levantou a cabeça e me olhou de lado, sem entender.
— Vocês são uns desgraçados — eu falei.
Ele abanou o rabo.
Eu me levantei segurando no batente da porta, com o cu latejando e as pernas bambas, e fui até o banheiro. A luz fluorescente me mostrou tudo: o quadril marcado de pata, a coxa suja, a barriga seca de esperma, o rosto vermelho, o cabelo grudado de baba. Me olhei no espelho e não me reconheci. Ou melhor: me reconheci, mas num estado que eu não sabia que o meu corpo tinha.
Tomei banho morno, e a água no cu ardeu, e eu fiquei de costas pro chuveiro, deixando cair.
Quando voltei, os dois estavam na porta da varanda, esperando. Eu abri a porta do quarto e eles entraram e se deitaram no chão, um de cada lado da cama, como se sempre tivessem feito aquilo.
Apaguei a luz. O ventilador de teto girava devagar, e o calor continuava, e eu fiquei de barriga pra cima com o corpo doendo em lugares que eu nem sabia que existiam.
O Trovão soltou um suspiro comprido, molhado.
Antes de dormir eu passei a mão pra fora da cama e encostei neles. Dois pescoços grossos, quentes, vivos. Duas respirações. E eu pensei que domingo à noite, quando o seu Osvaldo voltasse, ia ser difícil explicar por que eu já não queria mais ir embora.
Melhor não explicar. Ninguém ia acreditar de qualquer jeito.