BONITINHA, MAS ORDINÁRIA: O PAI CONFIDENCIANDO AO AMIGO, SOBRE O "ACIDENTE" DA FILHA...
Foi numa tarde de terça-feira, três dias depois do pai ter descoberto as marcas no corpo da filha. José ligou para Renato no meio da manhã. A voz estava alterada, baixa demais para um homem acostumado a mandar. Pediu para o amigo passar em casa. “Preciso falar com alguém de confiança. É grave.” Renato chegou no fim da tarde. Terno impecável, cheiro de cologne caro, o ar solene de sempre. José o recebeu no escritório, a porta fechada, a garrafa de uísque já aberta sobre a mesa. Os dois se sentaram. O pai de Maria Cecília demorou a começar. Quando falou, as palavras saíram pesadas, como se custassem a deixar a boca. — Aconteceu uma coisa com a Maria Cecília. Renato inclinou a cabeça, o olhar atento. — Um acidente? Ela se machucou? José passou a mão pelo rosto. Os olhos estavam vermelhos. — Não exatamente um acidente. Ela… foi pega. Por três homens. Num terreno baldio. O carro quebrou. Eles… usaram ela. Os três. O silêncio que se seguiu foi longo. Renato manteve a expressão controlada, mas por dentro o sangue desceu rápido. A imagem da menina clara, do rosto de anjo, sendo aberta por três desconhecidos no mato, acendeu algo escuro e imediato. — Meu Deus, José… — murmurou, a voz na medida certa de choque e solidariedade. — A pobre menina. Como ela está? — Destruída. E ao mesmo tempo… não está. Ela não chora. Não se esconde. Fala abertamente. Diz que gozou. Eu não sei mais o que fazer com ela. A Helena está em colapso. Se isso vazar, estamos acabados. Renato assentiu devagar, o rosto grave. Por dentro já calculava. — Você pode contar comigo. No que for preciso. Esconder, levar a menina para fora, conversar com ela, o que for. Somos amigos há trinta anos. A Maria Cecília é quase sobrinha. José ergueu os olhos, aliviado e humilhado ao mesmo tempo. — Eu não sei nem como agradecer, Renato. Você sempre foi o mais sensato de todos nós. — Não precisa agradecer. — Renato estendeu a mão e apertou o ombro do amigo. — Eu cuido do que for necessário. Inclusive se precisar que alguém a leve para a casa da sua irmã, em Petrópolis. Posso fazer isso. Discretamente. José balançou a cabeça, a emoção subindo à garganta. — Você faria isso? — Claro. Na melhor das intenções. Como grande amigo da família. Os dois ficaram em silêncio por um momento. José encheu os copos. Beberam. Renato ouviu mais alguns detalhes — as marcas, o cheiro, a forma como a filha o encarava sem vergonha — e a cada palavra o desejo crescia, frio e paciente. Quando se levantou para ir embora, já tinha o plano armado na cabeça. Na porta, ainda apertou a mão de José com força e repetiu: — Qualquer coisa. Estou à disposição. José agradeceu de novo, a voz embargada. Renato desceu os degraus da casa com o corpo já reagente. No carro, antes de ligar o motor, ficou alguns segundos parado, imaginando a menina nua, marcada, escorrendo, e o pai desesperado pedindo ajuda exatamente para o homem que mais tarde a comeria no sofá da sala. Na melhor das boas intenções. Como grande amigo da família.
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