O "Aguardente" era mais escuro e mais íntimo do que ela imaginara. Às quatro da tarde, estava vazio, exceto por um bêbado solitário no canto e o barman, um homem quieto chamado Jonas. Paulo estava no escritório minúsculo nos fundos, a cabeça iluminada pela luz azulada de uma planilha.
"Sarah." Ele pareceu genuinamente alarmado ao vê-la. "O que está fazendo aqui?"
"Preciso da chave, lembra?" Seus olhos percorreram o escritulo - as pilhas de papéis, a garrafa de uísque na escrivaninha, a foto dele com sua mãe, desbotada pelo sol. Um lugar sufocante para um homem que cheirava a liberdade e noites sem fim.
Ele pegou o chaveiro e estendeu a ela, mantendo a distância. Sua mão era grande, veiosa, capable de partir um homem ao meio, ela pensou. Capaz de uma delicadeza infinita.
"Obrigada." Seus dedos fecharam-se em torno das chaves, e por um segundo, em torno dos dele também. "É um lugar interessante. Cheio de histórias."
"É um trabalho, Sarah. Só isso."
Ela olhou para a foto. "Mamãe nem parece ela aqui. Está tão... feliz."
Ele não respondeu. O ar entre eles estava carregado de tudo que não era dito - da ausência de Maria, da tensão sexual que pendia como um vapor, do fato de que Sarah, agora uma mulher, era um reflexo perturbador e jovem da mãe.
"Preciso voltar ao trabalho", disse ele, finalmente.
"Claro." Ela deu meia-volta, sentindo seus olhos em suas costas enquanto saía. A vitória era um gosto doce e perigoso na sua boca