Rogério, o pai de Lucas, ocupava a cabeceira. Com o garfo suspenso no ar, ele pontuava seu monólogo habitual sobre a incompetência de seus funcionários na empresa. Ele era um homem grande, de voz grave e presença que ocupava todo o cômodo, sugando o oxigênio ao redor.
— Porque o problema dessa geração — dizia Rogério, olhando para o nada, sem notar que ninguém prestava atenção — é a falta de pulso. Ninguém quer sujar as mãos. Ninguém quer construir um legado.
Na outra ponta, Cláudia, a mãe de Marina, sorria aquele sorriso treinado de esposa troféu. Ela servia mais vinho na taça do marido, os movimentos ágeis e nervosos de quem caminha sobre ovos.
— Está delicioso, Rogério. Mas não se estresse com trabalho no domingo — ela disse, a voz doce demais, quase enjoativa.
Lucas, sentado de frente para Marina, observava a cena com um tédio que beirava a náusea. Ele tinha vinte e dois anos, o maxilar travado e uma revolta silenciosa queimando no peito. Ele odiava aquele teatro. Odiava a forma como o pai mastigava de boca aberta quando estava irritado. Odiava como Cláudia fingia que tudo era perfeito.
Mas, principalmente, ele odiava o quanto era difícil tirar os olhos de Marina.
Ela estava sentada à sua frente, vestindo um daqueles vestidos floridos que a mãe a obrigava a usar para parecer a "boa moça". Marina tinha vinte anos, pele clara e uma postura rígida, com os olhos fixos no prato de comida quase intocado. Ela parecia uma estátua de virtude.
Lucas sabia que era mentira. Ou, pelo menos, torcia para que fosse.
Enquanto Rogério voltava a discursar sobre taxas de juros, Lucas esticou a perna por baixo da mesa. O espaço era amplo, mas ele sabia exatamente onde ela estava.
O pé dele, descalço, encontrou a panturrilha dela.
Marina travou. Ele viu os ombros dela subirem um centímetro, uma reação involuntária de choque. Ela não recuou a perna. Lucas sorriu internamente, um sorriso cruel, e deslizou o pé devagar para cima, roçando o tecido fino do vestido, sentindo o calor da pele dela.
Ela levantou os olhos abruptamente, encarando-o. As pupilas estavam dilatadas, o rosto começando a ganhar um tom rosado que contrastava com a maquiagem leve.
— Algum problema, Marina? — a voz de Rogério estalou no ar, cortante.
O pé de Lucas parou, mas não recuou. Ele continuou pressionando a perna dela, um segredo sujo compartilhado sob o linho imaculado da toalha.
Marina engoliu em seco, desviando o olhar de Lucas para o padrasto.
— Não... não, Rogério — ela gaguejou, a voz falhando por um fio. — Só... mordi a língua.
— Preste atenção — resmungou o pai, voltando ao seu vinho. — Cabeça nas nuvens, igual à mãe.
Lucas sentiu um frêmito percorrer o corpo de Marina através do contato de suas pernas. Não era apenas medo. Havia eletricidade ali. Ele subiu o pé mais um pouco, roçando perigosamente a parte interna do joelho dela. Marina soltou o ar pesadamente pelo nariz, largando os talheres no prato com um clack alto demais.
Cláudia olhou feio para a filha, mas Lucas manteve a expressão impassível, bebendo seu suco como se fosse o filho modelo.
— Estou satisfeita — disse Marina, empurrando a cadeira para trás, quebrando o contato físico. Ela parecia prestes a explodir.
— A sobremesa ainda nem foi servida — protestou Cláudia.
— Eu preciso... estudar. Tenho prova amanhã — mentiu Marina, sem olhar para trás, saindo da sala de jantar com passos rápidos, o som dos pés descalços ecoando na escada de madeira.
Um silêncio pesado caiu sobre a mesa. Rogério limpou a boca com o guardanapo, indiferente à fuga da enteada.
— Juventude fraca — bufou ele, levantando-se. — Cláudia, vou me deitar. Me acorde às cinco. Aquele vinho me deu sono.
— Claro, querido. Eu vou... organizar a cozinha e descansar um pouco também — respondeu a mãe, já recolhendo os pratos.
Lucas permaneceu sentado. Ele ouviu os passos pesados do pai subindo a escada, indo para o quarto principal. Ouviu o tilintar da louça da madrasta na cozinha.
A casa estava prestes a mergulhar na sesta da tarde. O mormaço lá fora prometia chuva, mas o calor dentro de Lucas era de outra natureza.
Ele olhou para o teto, imaginando Marina no quarto logo acima, sozinha, fugindo da tensão que ele havia provocado. Ele esperou cinco minutos. Dez. Até ter certeza de que a porta do quarto dos pais havia se fechado.
Então, ele se levantou. A caçada havia começado.
Aguardando a continuação q parece prometer bem