Capítulo 1: A Véspera e a Máscara A mala de viagem parecia prestes a explodir, assim como a paciência de Thais. — Alisson, pelo amor de Deus, sai desse videogame e senta em cima dessa mala agora! — ela gritou, equilibrando-se com um joelho sobre o zíper estufado, enquanto tentava puxar o fecho com as duas mãos. Do outro lado do quarto, deitado na cama desfeita e cercado por embalagens de salgadinhos, Alisson pausou o jogo com um suspiro teatral. Ele se levantou, coçando a barriga por cima da camisa de time de futebol. — Calma, estressadinha. Férias começam quando a gente sai de casa. Você já tá em clima de guerra. Ele caminhou até ela e, com um peso morto exagerado, sentou-se sobre a mala rígida. O som do ar sendo expulso das roupas foi audível. Thais aproveitou a chance e correu o zíper até o final, soltando um gemido de vitória. — Guerra não, Alisson. Prevenção — disse ela, limpando o suor da testa. — A gente vai passar uma semana no meio do nada. Se faltar alguma coisa, não tem shopping na esquina. Thais se jogou na cama ao lado do espaço onde o marido estava antes. Ela olhou para o teto, onde uma mancha de umidade antiga desenhava um mapa abstrato. — Você acha que vai ser muito chato? — perguntou ela, a voz perdendo um pouco da agressividade e ganhando um tom de confidência. Alisson riu, voltando para o controle do videogame. — A viagem? Não. A companhia? Provavelmente. Thais virou de lado, apoiando a cabeça na mão. — Eu gosto deles, sério. A Saráh é um amor, super educada. E o Eduardo... bom, o Eduardo é útil. Ele resolve coisas. Mas... — Mas eles são mornos — completou Alisson, sem tirar os olhos da TV. — São tipo chá de camomila morno numa tarde de domingo. O Eduardo parece que tem medo de falar palavrão, e a Saráh... sei lá. Parece uma boneca que ele tira da caixa e guarda depois. — Exatamente! — Thais estalou os dedos. — Falta sangue, sabe? Falta vida. Eu fico imaginando eles sozinhos. Devem jantar em silêncio, ler um livro e dormir às dez da noite de pijama de flanela. Alisson soltou uma gargalhada alta. — Pijama de flanela abotoado até o pescoço! Pode apostar. Mas relaxa, amor. A gente é a alma da festa. Vou levar a caixa de som, vou fazer minhas caipirinhas batizadas... Em dois dias eu faço o Eduardo soltar a franga. Ou pelo menos tirar aquela camisa polo ridícula. Thais riu, sentindo-se aliviada. Eles eram o casal divertido. O casal real. O casal que brigava, gritava, mas que tinha fogo. Eles seriam os salvadores daquela semana. A dez quilômetros dali, em um bairro onde as ruas eram mais largas e arborizadas, o silêncio era absoluto. No quarto principal do apartamento de cobertura, não havia roupas espalhadas. As duas malas de couro preto já estavam fechadas e posicionadas ao lado da porta, perfeitamente alinhadas, como soldados esperando o comando. O ar-condicionado mantinha o ambiente em frios 19 graus. O cheiro no ar era de lavanda e madeira, vindo de um difusor caro sobre a cômoda. Eduardo estava sentado na poltrona de leitura, vestindo um hobby de seda azul-marinho. Ele não lia, apenas observava. Seus olhos seguiam Saráh, que estava sentada diante da penteadeira, passando um creme noturno no pescoço com movimentos ascendentes, lentos e precisos. — Verificou o alarme? — a voz de Eduardo quebrou o silêncio. Era um barítono suave, calmo, mas que carregava uma autoridade natural. Saráh não se virou. Ela encontrou o olhar dele através do espelho. — Verifiquei. E deixei as chaves extras com a portaria, caso a diarista precise entrar. Ela terminou o ritual, limpou as mãos em um lenço de papel e se levantou. O tecido leve da camisola deslizou pelo corpo dela, revelando contornos que ela mantinha escondidos sob as roupas sociais de trabalho. Saráh caminhou até Eduardo e parou diante dele. Ele estendeu a mão. Ela a pegou. Eduardo a puxou suavemente, fazendo-a sentar no braço da poltrona. — Você sabe que vai ser um teste de paciência — disse ele. Não era uma pergunta. — O Alisson e a Thais... — Saráh sorriu, um sorriso pequeno, quase condescendente. — Eles são intensos. — Eles são barulhentos. Desorganizados. — Eduardo passou o polegar sobre a mão dela, num carinho firme. — Vão querer "animar" a casa. Vão querer que a gente entre no ritmo deles. — E nós vamos entrar — disse Saráh, inclinando-se para beijar a testa do marido. — Vamos sorrir, vamos beber socialmente, vamos ouvir as piadas sem graça do Alisson e fingir que a Thais não está morrendo de inveja do meu cabelo. Eduardo segurou o queixo dela, obrigando-a a olhá-lo nos olhos. O gesto foi rápido, possessivo. — Lembre-se da regra, Saráh. A máscara fica no lugar o tempo todo. Lá fora, somos o casal padrão. O que nós somos de verdade... fica apenas entre nós. Saráh sentiu um arrepio familiar percorrer a espinha. O "Eduardo público" era um homem gentil e passivo. O homem que segurava seu queixo agora era outra coisa completamente diferente. — Eu sei me comportar, Eduardo. — Eu sei que sabe. É por isso que você é minha. Ele soltou o rosto dela e se levantou, desligando o abajur. O quarto mergulhou na escuridão, guardando segredos que Thais e Alisson nem poderiam sonhar em imaginar. O sol do litoral bateu com violência no para-brisa assim que eles dobraram a esquina da rua de areia. A casa era impressionante. Uma construção cúbica, moderna, toda branca, destacando-se contra o céu azul sem nuvens. Tinha grandes janelas de vidro e um gramado verde que parecia artificial de tão bem cuidado. O SUV de Alisson estacionou levantando poeira. Antes mesmo de desligar o motor, a porta do motorista se abriu e Alisson saltou, os braços abertos para o céu. — LIBERDADE, CAMBADA! — ele berrou, a voz ecoando na rua vazia. Ele já estava de óculos escuros espelhados e uma bermuda floral. Thais desceu logo atrás, ajeitando o biquíni que já usava sob a saída de praia transparente. Ela correu para abrir o portão, rindo da euforia do marido. Logo atrás, o sedan preto de Eduardo encostou suavemente. Sem poeira, sem freadas bruscas. Eduardo desligou o carro e tirou o cinto com calma. Ele olhou para Saráh. — Queecomecem os jogos — sussurrou ele. — Sorria — respondeu ela. Eles desceram. Eduardo, impecável em sua camisa de linho e bermuda de alfaiataria, cumprimentou Alisson com um aperto de mão firme, desviando sutilmente do abraço suado que o amigo tentou dar. — Bela casa — disse Eduardo, analisando a fachada com olho crítico. — Bela? É um palácio, Edu! — gritou Alisson, dando um tapa nas costas dele. — E o melhor: o aluguel foi uma pechincha. Vamos entrar, a cerveja não vai gelar sozinha. Eles entraram arrastando malas e caixas de isopor. A sala era ampla, com pé-direito duplo, mas o corretor de imóveis havia sido estrategicamente silencioso sobre a disposição dos quartos. Enquanto os homens traziam as bebidas, Thais foi explorar o corredor. — Gente... temos um problema técnico — anunciou ela, parada no meio do corredor estreito. Eduardo e Saráh se aproximaram, com suas malas de rodinhas silenciosas. — O que foi? — perguntou Saráh. — Só tem dois quartos habitáveis com ar-condicionado. O terceiro é um quartinho de empregada minúsculo e quente — explicou Thais, apontando. — Então, vamos ter que ficar nesses dois aqui. Ela apontou para duas portas de madeira branca, uma ao lado da outra. Thais bateu na parede que separava as duas portas com os nós dos dedos. Toc-toc. O som foi seco, oco. — Drywall — constatou Thais, fazendo uma careta. — Gesso. Isso aqui é basicamente uma folha de papel pintada de branco. Alisson surgiu atrás deles com uma caixa de cerveja no ombro. — Ih, rapaz. Isso significa que a privacidade foi pro espaço. Ele olhou para Eduardo com um sorriso malicioso, cheio de segundas intenções. — Espero que vocês tenham o sono pesado, Edu. Porque quando a Thais bebe, ela ronca. E, bom... a gente não é conhecido por ser silencioso, se é que você me entende. Thais deu um tapa no braço do marido, rindo alto, mas com o orgulho evidente de quem exibia sua vida sexual como um troféu. — Para, Alisson! Vai assustar eles. Saráh trocou um olhar rápido, quase imperceptível, com Eduardo. Por uma fração de segundo, os olhos de Eduardo escureceram, mas logo ele voltou a sorrir — aquele sorriso educado e inofensivo de sempre. — Não se preocupem com a gente — disse Eduardo, a voz tranquila. — Nós somos muito discretos. Vocês nem vão notar que estamos no quarto ao lado. — É — concordou Saráh, abrindo a porta do quarto deles. — Podem fazer o barulho que quiserem. Nós não vamos incomodar. Thais observou o casal entrar no quarto e fechar a porta. Ela balançou a cabeça, acendendo um cigarro. “Coitados”, pensou ela. “Vão ficar ouvindo a gente se divertir e vão morrer de vergonha. Espero que tenham trazido fones de ouvido.” Ela não sabia, mas aquela parede fina não seria o palco da vergonha de Eduardo e Saráh. Seria a ruína da sanidade dela.
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