Uma noite, após uma discussão banal sobre as contas do mês—aquelas brigas que escondem descontentamentos mais profundos—Maria recolheu-se ao quarto mais cedo, queixando-se de uma enxaqueca latejante. Sarah e Paulo ficaram na sala, envoltos pela luz fantasmagórica da televisão, que iluminava seus rostos sem, no entanto, aquecer o ambiente.
"Ela está se matando de trabalhar", comentou Paulo, o olhar fixo no noticiário, mas a mente claramente em outro lugar.
"E você? Não está?" Sarah encolheu os pés debaixo do corpo no sofá, observando-o com atenção. "Trabalhando e se matando, quero dizer."
Ele virou-se para ela, e pela primeira vez, ela viu um lampejo de raiva genuína em seus olhos. "O que você quer, Sarah?"
"A verdade."
"A verdade sobre o quê?"
"Por que você casou com ela."
Ele riu, um som seco e sem humor. "Isso não é da sua conta."
"É, sim." A voz dela era um fio de desafio. "Porque quando você olha para ela, eu estou lá. E quando você olha para mim..." Ela não terminou a frase. Não precisava. O ar entre eles pareceu ficar mais rarefeito.
Ele levantou-se de um salto, como se o sofá estivesse em chamas. "Você não faz ideia do que está falando. Você é uma criança brincando com fogo."
"Eu não sou uma criança." Ela também se levantou, enfrentando-o. A diferença de altura era considerável, mas ela não recuou. "E você não está feliz. Eu vejo. Todos os dias, você diminui um pouco mais. Esta casa é uma gaiola para você."
"Esta casa é minha vida", ele retrucou, mas a voz falhou, traindo sua própria convicção.
Ela deu um passo à frente. Estavam tão perto que ela podia sentir o calor emanando de seu corpo, sentir o cheiro dele—uísque, cigarro e algo profundamente masculino que a fazia sentir tonta.
"Eu poderia te fazer sentir vivo", sussurrou ela, a voz carregada de uma ousadia perigosa.
Por um instante que pareceu uma eternidade, ela pensou que ele ia ceder. Seus olhos baixaram para sua boca, e ela viu a luta interna estampada em seu rosto—o homem contra o padrasto, o desejo contra a decência. Seu corpo inclinou-se levemente na direção dela, uma gravidade perversa puxando-os juntos.
Então, ele fechou os olhos e recuou, como se tivesse se queimado.
"Vá para o seu quarto, Sarah." A voz dele estava rouca, quebrada, como se cada palavra tivesse sido arrancada à força.
Ela obedeceu, mas não antes de lançar um último olhar sobre ele, parado no meio da sala como um náufrago diante de um resgate recusado. Ela tinha aberto uma fenda em sua armadura, exposto a fratura. Era o suficiente por enquanto. A semente estava plantada.