"Estarei aqui. A porta dos fundos estará aberta", respondeu, suas mãos suadas quase deixando o celular escorregar.
O "Aguardente" à luz do dia era um lugar fantasmagórico, mas hoje parecia carregado de eletricidade. Quando a porta dos fundos rangeu, Paulo não se virou. Ouviu os passos leves de Sarah se aproximando, sentiu seu perfume invadindo o espaço antes mesmo de vê-la.
Ela fechou a porta com um clique suave.
"O livro...", ele começou, mas a voz falhou quando seus olhos encontraram os dela.
Sarah não deu atenção à farsa do livro. Caminhou até ele com uma determinação que fez o ar faltar em seus pulmões. Parou a centímetros, seu corpo quase tocando o dele.
"Chega de joguinhos, Paulo", disse, sua voz um sussurro carregado de verdade. "Ou você me beija agora, ou eu vou embora e você nunca mais vai me ver dessa forma."
O mundo parou. Paulo podia ouvir o tique-taque do relógio na parede, o zumbido da geladeira, o som da própria respiração ofegante. Todos os seus argumentos morais, todas as promessas feitas, tudo desmoronou como um castelo de cartas diante daquela oferta - e daquela ameaça.
Ele não recuou.
Seus olhos percorreram o rosto dela - os lábios entreabertos, os olhos cheios de desafio e vulnerabilidade - e algo dentro dele se rompeu. Foi como se uma corrente que o prendia há anos tivesse se partido.
Quando seus lábios finalmente se encontraram, não houve mais barreiras. Foi um beijo de fome acumulada, de desejo reprimido por tanto tempo que já doía. Suas mãos encontraram a cintura dela, puxando-a contra seu corpo com uma urgência que surpreendeu a ambos.
O bar, o mundo lá fora, Maria - tudo desapareceu naquele momento. Havia apenas a verdade crua daquele beijo, do corpo de Sarah contra o seu, do sabor proibido que ele finalmente experimentava.
Quando se separaram, ofegantes, os olhos de Paulo estavam escuros de desejo e culpa. Sarah sorriu, um sorriso triunfante e perigoso.
"Agora é tarde demais para voltar atrás", ela sussurrou, os dedos traçando a linha de seu queixo.
Paulo não respondeu. Apenas a puxou para outro beijo, mais profundo, mais desesperado. Ele sabia que ela estava certa. Havia cruzado uma linha que não poderia jamais desfazer. O segredo que agora compartilhavam era maior, mais pesado e mais perigoso do que qualquer mensagem de texto.
E no fundo, na parte de si que ainda conseguia pensar com clareza, ele sabia que isto era apenas o começo.