Então, ela entrou.
Sarah desceu as escadas com uma lentidão deliberada. Vestia uma camiseta velha e shorts, mas para Paulo, naquele momento, ela poderia estar usando qualquer coisa – sua mera presença era agora uma declaração. Seus olhos se encontraram por uma fração de segundo, e foi como um choque elétrico percorrendo a sala. Um silêncio pesado e carregado caiu sobre eles, quebrado apenas pelo gotejar da torneira.
"Bom dia", ela disse, sua voz um pouco rouca. Era a mesma voz que sussurrara seu nome no bar, na penumbra.
Paulo apenas assentiu, incapaz de confiar na própria voz. Seu coração batia com tanta força que ele temia que Maria pudesse ouvir lá de cima. Ele se virou para pegar o pão, e ao fazê-lo, seu braço roçou no dela. Desta vez, não foi um acidente. Foi um teste. Um reconhecimento. E ele não se afastou. O toque, breve e quente, queimou através do tecido de sua camisa, um lembrete vívido e proibido do que haviam compartilhado.
Maria entrou na cozinha, envolta em seu roupão, esfregando os olhos sonolentos. "Cheiro de café fresco, que delícia."
Paulo forçou um sorriso, sentindo-o falso e grosseiro em seu rosto. "Tome, amor." Ele lhe entregou uma xícara, suas mãos notavelmente mais firmes do que há alguns minutos. A mentira já começava a se solidificar, um músculo sendo exercitado.
Enquanto Maria se sentava, Sarah passou por trás da cadeira de Paulo. Sua mão, leve como uma pena, repousou em seu ombro por um instante que se esticou por uma eternidade. "Com licença, padrasto", ela sussurrou, a palavra "padrasto" saindo como um termo de posse, não de respeito.
Paulo congelou, a xícara a meio caminho da boca. Ele podia sentir o calor da mão dela através da camisa, uma marca de fogo que ninguém mais podia ver. Seus olhos encontraram os de Sarah por cima do ombro, e ele viu neles um brilho de triunfo e intimidade. Ela estava marcando seu território, e ele, implicitamente, estava cedendo.
"O que foi, Paulo? Você está pálido", disse Maria, inclinando-se para a frente com preocupação.
Ele engasgou com o café. "Nada, nada. Só... cansado. O bar ficou movimentado ontem." A nova mentira saiu facilmente, misturando-se à verdade, criando uma névoa onde ele podia se esconder.
Sarah sentou-se à mesa, um pequeno e secreto sorriso nos lábios. Ela pegou um pão e o passou para Paulo, seus dedos se encontrando brevemente sobre a cesta. "Toma, Paulo. Você precisa se alimentar." Seus olhos o desafiavam, divertidos, perigosos.
A refeição prosseguiu naquele ritmo surreal. Uma coreografia perversa de olhares roubados, toques furtivos e palavras de duplo sentido, tudo executado sob o olhar amoroso e inconsciente de Maria. Paulo respondia aos avanços sutis de Sarah com uma tensão visível, sua consciência gritando em protesto, mas seu corpo, sua vontade mais profunda, já rendido àquela nova e perigosa realidade. Eles não eram mais perseguidor e perseguido. Eram cúmplices. Unidos por um segredo que era ao mesmo tempo uma bomba-relógio e um afrodisíaco.
Quando Maria se levantou para levar as xícaras à pia, ela parou atrás de Paulo e o abraçou, beijando sua testa. "Te amo, sabia?"
Paulo sentiu as palavras como uma punhalada. Seus olhos, cheios de angústia, encontraram os de Sarah. E ela, do outro lado da mesa, segurou seu olhar, seu sorriso secreto se aprofundando. Ela sabia. Ela sabia que aquele abraço inocente era uma tortura para ele. E ela se deleitava com isso.
"Eu também te amo, Maria", ele sussurrou, a mentira mais pesada de todas.
"Que tal irmos todos jantar fora hoje?", sugeriu Maria, voltando para a mesa. "Aquele restaurante italiano que você gosta, Paulo. Podemos comemorar... não sei, a vida!"
Paulo sentiu as palavras congelarem em sua garganta. Encenar a família feliz, agora, parecia a mais cruel das ironias. Mas antes que ele pudesse articular uma desculpa, Sarah falou, sua voz doce como mel.
"Que ideia maravilhosa, mãe. Vai ser perfeito." Seus olhos não saíam de Paulo, desafiando-o, incluindo-o na farsa. Você é um de nós agora, aqueles olhos pareciam dizer. Não há escapatória.
Paulo engoliu seco e forçou outro sorriso. "Perfeito", ele ecoou, sua voz soando oca em seus próprios ouvidos.
O acordo estava selado. Eles eram uma família, sim. Uma família construída sobre um alicerce de areia movediça, com um segredo sujo e ardente pulsando em seu centro. E Paulo sabia, com uma clareza aterradora, que aquele jantar seria apenas o primeiro de muitos atos em uma peça que só poderia terminar em tragédia