Maria pousou a taça. Seus olhos encontraram os de Paulo, não com a frieza de antes, mas com uma lucidez cortante.
"Não viemos celebrar, Paulo. Viemos confessar. Os três", disse ela, a voz baixa, mas firme. "Eu não sou cega. E nem quero que você se sinta culpado ou envergonhado por algo que... não é inteiramente um erro. Você e Sarah. Eu sei."
Paulo empalideceu. A tentativa de negação morreu em sua garganta, sufocada pela serenidade inesperada de Maria. Ele esperava gritos, lágrimas, o fim. Ele esperava a armadilha.
"M-Maria, eu sinto muito. Eu não sei o que me deu...", ele começou, a voz trêmula.
Sarah, então, inclinou-se. "Não é só sobre desculpas, pai. É sobre o que estava faltando. Não foi só um erro." Seus olhos voltaram-se para a mãe. "Mãe e eu conversamos. A caça acabou. Não somos rivais. Somos uma equipe que se cansou de fingir."
O conceito de "equipe" acertou Paulo como um soco. Ele percebeu que a dinâmica havia mudado de uma disputa para uma frente unida. Ele não estava entre duas mulheres que o queriam; ele estava diante de duas mulheres que se queriam e o incluíam na equação.
Maria sorriu, um sorriso sem malícia, quase terno. "Eu te amo. E sei que você me ama. E eu amo Sarah. E sei que você a ama de uma forma que nunca deveria ter sido secreta. Por que o amor precisa ser limitado? Por que precisamos nos diminuir para caber num molde que nos sufoca?" Ela fez a pergunta decisiva. "O que eu proponho é que você pare de esconder e comece a amar as duas abertamente. Que sejamos... um trisal, Paulo. Uma família honesta e adulta."
O choque de Paulo foi profundo. Ele olhou da esposa para a filha. Isso não era vingança. Era uma proposta de vida radical. O medo de ser punido foi lentamente substituído pelo alívio de ser compreendido em sua totalidade, por ambas as mulheres. Ele riu, um som rouco e nervoso, quase histérico.
"É loucura", ele sussurrou. "É uma loucura total."
"É uma escolha, Paulo", corrigiu Maria. "E é a única chance de nos salvar. Os três."
O silêncio voltou, mais longo e pesado. Paulo respirou fundo, fechou os olhos, e então os abriu, a vergonha substituída por um lampejo de esperança aterrorizada. Ele olhou para as mãos das duas.
"Não vou prometer que será fácil", ele disse, a voz ainda rouca. "Mas... eu não vou mentir mais. Eu não posso perder vocês duas."
Maria pegou a garrafa de vinho e serviu um pouco mais em cada taça. Ela ergueu a sua.
"Ao nosso novo começo", disse Maria, os olhos brilhando com uma coragem feroz.
Sarah ergueu a dela, a mão batendo suavemente a taça da mãe.
"À verdade", ela respondeu.
Paulo hesitou por um segundo. Então, ele ergueu sua taça, os olhos fixos nas duas. O som do vidro tilintando foi um sino fúnebre para o casamento tradicional e um toque de celebração para o pacto insólito que nascia.
O vinho tinto, antes amargo com segredos, agora parecia ter o sabor doce e estranho de uma nova promessa. A família perfeita morrera ali, naquela mesa, para dar lugar a algo mais real, mais complicado, mas infinitamente mais seu. O jogo havia terminado. A vida, finalmente, havia começado.
Excelente conto! Vai continuar 2 acto?