Chamava-se "Terraço", e ficava na cobertura de um prédio antigo, com uma vista deslumbrante da cidade iluminada. A música era um jazz baixo, e os garçons moviam-se como sombras. Era um lugar onde se fechavam negócios de milhões, ou onde se pedia alguém em casamento.
Helena sentiu-se um pouco intimidada pela primeira vez. Ela estava profissional, num vestido escuro, mas Artur, que já a esperava na mesa, parecia o dono do lugar.
Ele levantou-se assim que ela chegou, um gesto de cavalheiro que a surpreendeu.
Artur: Helena. Que bom que veio. — Ele puxou a cadeira para ela. — Você está linda.
Helena: (Sentando-se, um pouco tensa) Obrigada, Artur. O lugar é incrível. (Ela decidiu usar o primeiro nome, como ele havia pedido na sala de reuniões).
Artur fez sinal para o sommelier, que já estava a postos.
Artur: Um Brunello. O senhor sabe qual. — Ele se virou para Helena. — Confie em mim, vai gostar.
A tensão inicial foi quebrada pelo vinho. Era, sem dúvida, o melhor vinho que Helena já tinha provado.
Artur: Então. — Ele encostou-se na cadeira, girando a taça. — "Um parque que ninguém usa é só um gramado caro." Gostei disso.
Helena: (Ela sorriu, relaxando um pouco) Fico feliz. Achei que seria demitida depois de enfrentar o Vargas.
Artur: (Ele riu, um som grave) O Vargas é pago para concordar comigo. Você... você foi contratada para me desafiar. Foi por isso que eu te chamei para este projeto. Eu não preciso de mais ecos na minha empresa, Helena. Eu preciso de outra voz.
A conversa começou pelo parque. Falaram sobre os materiais, sobre o fluxo de pessoas, sobre como a luz do sol bateria no lago às quatro da tarde.
Mas Helena percebeu algo estranho. Artur não estava fazendo perguntas de chefe. Ele estava fazendo perguntas de... curioso.
Artur: Por que paisagismo? Você é boa demais para se limitar a árvores. Poderia estar projetando arranha-céus.
Helena: (Ela parou com a taça no meio do caminho) Acho que os arranha-céus já têm atenção demais. Ninguém repara no chão que pisa. Eu gosto de criar lugares onde as pessoas possam... respirar. No meio do caos.
Artur ficou quieto por um momento, olhando para ela. Ele não a via como uma funcionária de 30 e poucos anos. Ele via uma mulher com um propósito.
Artur: Respirar. — Ele repetiu, baixo. — Eu não faço muito isso.
Helena: O senhor dirige a maior construtora da cidade. Imagino que "respirar" não esteja na agenda.
Artur: (Ele deu um sorriso triste) É o problema de construir um império, Helena. Você passa tanto tempo construindo as muralhas que esquece de criar um jardim lá dentro. — Ele fez uma pausa, e o clima da mesa mudou. Deixou de ser profissional. — Minha esposa, Lúcia, ela era o meu jardim. Ela que me fazia respirar.
Helena baixou os olhos. Não esperava por aquilo.
Helena: Sinto muito.
Artur: Já faz tempo. Oito anos. Mas a empresa... o trabalho... vira um vício. É a única coisa que não vai embora. — Ele se inclinou um pouco para a frente. A luz da vela refletiu nos seus olhos. — Até que você aparece numa reunião, usando vermelho e falando de árvores com uma paixão que eu não via... há oito anos.
O coração de Helena disparou.
Isto não era sobre o parque. Já não era há algum tempo.
Ele não estava sendo um chefe. Ele estava sendo um homem. Um homem poderoso, charmoso e terrivelmente solitário, que a olhava como se ela fosse a primeira coisa interessante que ele via em muito, muito tempo.
Artur: Não estou construindo só um parque, Helena. Estou tentando construir algo que dure mais do que eu. Um legado. Você parece entender de coisas que duram. Você planta sementes.
O resto do jantar foi uma névoa. Falaram sobre a vida, sobre a Itália (onde o vinho era feito), sobre livros. Artur era inteligente de um jeito que a fascinava. Ele tinha visto o mundo, tinha construído o mundo.
Quando ele a deixou na porta do restaurante, esperando o táxi dela chegar, o ar da noite parecia elétrico.
Artur: Tivemos uma ótima discussão de projeto, Helena.
Helena: (Ela o olhou, entendendo o jogo) Sim, tivemos. Foi... muito produtivo.
Artur: Precisamos fazer isso mais vezes. O projeto é complexo. Requer... atenção total.
Ele não tocou nela. Não precisava. Apenas a forma como ele a olhou, um segundo a mais do que o normal, foi suficiente.
Helena entrou no táxi sentindo-se tonta. O vinho era forte, mas a conversa tinha sido mais. Ela foi contratada para um trabalho, mas sentia que tinha sido entrevistada para outra coisa. E a parte mais confusa era que... ela não sabia se tinha detestado a ideia.
Ela tinha um almoço com Bruno no dia seguinte. Ah, o Bruno, ela pensou. O filho. Quase tinha se esquecido.