O retorno do pai - 1



O quarto ainda estava escuro. Do outro lado da parede fina, escutei o Lucas tossir — aquela tosse seca que ele trazia desde que pegou chuva
Seis anos. Magro como um graveto, cabelo bagunçado igual ao do pai que nunca conheceu direito.

Levantei. A camiseta larga que eu usava para dormir grudou nas costas. Guinada, como sempre. Continuei mexendo o café com a colher, os olhos presos na mancha de umidade que subia pela parede perto da pia. A casa era pequena — dois quartos apertados, uma sala que cabia um sofá e um rack, e essa cozinha onde a vida acontecia de verdade. Aluguel barato, era o que eu podia com salario de faxineira

"Lucas. Levanta, amor. Tá na hora."

Ele resmungou. Eu já conhecia cada som daquele menino. Peguei o pão, passei manteiga, cortei a casca. Do lado de fora, um caminhão de gás passou tocando aquela musiquinha irritante pela rua estreita

Levei o Lucas à escolinha às sete. Na volta, uma hora depois, o carro estava lá.

Estacionado em frente ao meu portão. Um Fiat uno prata, meio amassado na porta do motorista, com uma poeira que denunciava estrada. Um homem estava sentado no capô. De costas. Vista do ombro largo, camisa social de manga arregaçada, calça preta. Cabelo preto misturado com cinza, meio comprido na nuca.

"Vivian."

Ele se virou. O bigode branco era novo — não existia no homem da minha memória. O rosto mais enrugado, os olhos iguais, pretos, fundos. Aquele mesmo olhar de quem mede a pessoa antes de decidir o que sentir.

"Que que você quer aqui?"

Minha voz saiu mais dura do que eu planejava. Saía sempre. Eu não ensaiei a vida inteira para ter essa conversa, mas de algum jeito meu corpo tinha ensaiado por mim.

"Passando pela região. Vim trabalhar em Santos, fechei umas vendas. Pensei em te ver." Ele olhou para o portão, para a casa, para a roupa que eu usava. "Tá morando aqui?!"

"to!!"

Abri o portão, entrei, deixei aberto. Deixar fechado seria dizer que ele não podia entrar. E parte de mim — a parte que eu não queria ouvir — queria que ele entrasse.

A cozinha ficou pequena com ele dentro. Reginaldo ocupava espaço de um jeito que os móveis não conseguiam. Puxou a cadeira, sentou, os joelhos quase batendo na mesa. Eu fiquei de pé, encostada na pia, os braços cruzados.

"Seu cabelo tá comprido", ele disse.

"É."

"Você encorpou."

"O senhor veio de longe pra me chamar de gorda!?"


Ele riu. Uma risada curta, sem alegria. "claro que não. Pelo contrário, você ta otima"

"e o senhor ta velho"


O silêncio caiu. Do lado de fora, uma vizinha pendurava roupa no varal, o barulho dos prendedores como pequenos estalos.

"Como é que tá o Lucas?"

"pra que o senhor quer saber!?Você não sabe nada dele. Não sabe o que ele come, o que ele gosta, se ele dorme à noite"

"Vivian. É meu neto."

"Neto." Repeti a palavra como quem testa se ela corta. "Neto. Você tem outros netos, né? A outra família deu filho mais rápido?"

A cara dele endureceu. Ali, naquele instante, alguma coisa mudou na temperatura da cozinha. O ventilador da sala girava, o cheiro de café antigo parado no ar, e entre nós dois aquela corda que a gente fingia não ver — esticada desde o dia em que eu saí de casa com o Jorge, três meses depois de fazer dezoito anos, batendo a porta e jurando nunca mais voltar.

"vocÊ saiu de casa com aquele vagabundo do jorge e olha ai como ele te deixou"

"o senhor não tem direito de falar nada, escondeu de mim e da mãe outra familia, e agora quer pagar de certinho!?"

Ele ficou parado. Não tinha resposta. Não tem resposta pra isso.

levantou. A cadeira arrastou no azulejo. Ele chegou perto de mim — um passo, dois — e a cozinha virou um quadrado ainda menor. Eu podia sentir o cheiro dele: cigarro, sabonete, e aquele cheiro que meu pai sempre teve, de pele e roupa guardada.

"Eu errei", ele disse. "Errei com sua mãe. Errei com você. Mas eu vim aqui porque você é minha filha, e porque isso aqui

" ele apontou para o próprio peito, "

"o que ta aqui dentro doi muito"

"então apareceu só pra se sentir aliviado hein. Pois se era só isso, ja pode ir embora pai"

Ele balançou a cabeça, devagar. E então fez uma coisa que eu não esperava. Olhou pra mim e disse: "você se tornou muito parecida com sua mãe"

A porta da casa se abriu. Não — escutei passos no quintal.

"Vivian, você deixou o portão ab..." A voz morreu no meio da frase.

Virei o rosto. A vizinha do lado, dona Cida, segurando uma forma de bolo na mão, olhos arregalados

"ouvi barulho e vim ve o que era"

"não é nada dona Cida"

então meu pai passou por ela indo embora


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Ficha do conto

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Nome do conto:
O retorno do pai - 1

Codigo do conto:
273240

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
26/09/2026

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