Enquanto preparava o café.
Enquanto levava meu filho para a escola.
Enquanto trabalhava.
Enquanto lavava a louça.
Às vezes, lembrava das coisas que meu pai havia dito.Outras vezes, lembrava das que eu havia dito.
Aos poucos tentava fazer com q a saudade que eu sentia por ele fizesse esquecer as brigas e as palavras duras que falamom um para o outro
Na sexta-feira, enquanto colocava algumas roupas para secar no varal, ouvi meu celular tocar.
Olhei para a tela. O nome dele estava ali.
Fiquei alguns segundos olhando.
Atendi.
— Oi.
— Oi, filha.
A palavra me pegou desprevenida.
Filha.
Não Vivian.
Filha.
— Oi — respondi novamente.
— Eu estava pensando... posso ver você e o menino?
Olhei para a sala.
Meu filho estava sentado no chão, brincando com alguns carrinhos.
— Pode.
— Hoje?
— Hoje.
— Posso levar alguma coisa?
Pensei por alguns segundos.
— Traz queijo e presunto. Ele gosta.
— E você?
— Pão de queijo
— Então levo bastante.
Desliguei.
Meu filho levantou os olhos.
— Quem era?
— Seu avô.
Ele ficou curioso.
— Ele vai voltar?
Olhei para a porta.
— Vai.
Quando ele chegou, Trouxe uma sacola de pão de queijo ainda quente. E o queijo e presunto
Meu filho correu até a porta antes mesmo que eu pudesse chegar.
Meu pai ficou surpreso ao vê-lo.
— Oi.
Dessa vez, meu filho respondeu.
— Oi, vovô.
Meu pai olhou para mim.
Havia uma emoção difícil de esconder em seus olhos.
Ele se abaixou para ficar da altura do menino.
— Você gosta de pão de queijo?
— Gosto.
— Então acho que vamos nos dar bem.
Meu filho pegou a sacola.
— Tem bastante?
Meu pai riu.
— Tem.
Fiquei observando os dois.
pela primeira vez em muitos anos, meu pai estava dentro da minha casa sem que o passado ocupasse todo o espaço.
E talvez fosse assim que algumas relações começassem de novo.
Não com grandes promessas.
Mas com uma sacola de pão de queijo ainda quente e alguém disposto a bater à porta uma segunda vez.
Depois daquela segunda visita, meu pai começou a aparecer com mais frequência.
No começo, era uma vez por semana.
Depois, duas.
Às vezes aparecia no meio da tarde, sem avisar. Outras vezes ligava antes.
— Posso passar aí?
Eu quase sempre respondia que sim.
Não sei exatamente quando aquilo deixou de parecer estranho.
Talvez tenha sido quando ele passou a conhecer a rotina da casa.
Sabia o horário em que meu filho voltava da escola. Sabia que eu costumava fazer café no fim da tarde. Sabia que, aos domingos, eu lavava roupa enquanto meu filho assistia televisão.
Ele começou a fazer parte das pequenas coisas.
E foram justamente as pequenas coisas que começaram a me incomodar.
Um dia, enquanto tomávamos café, ele perguntou:
— Está faltando alguma coisa aqui em casa?
— Não.
Ele olhou para a geladeira.
— Essa conta de luz já venceu?
— Pai...
— Só estou perguntando.
— Eu pago minhas contas.
— Eu sei.
— Então pronto.
Ele ficou quieto.
Mas num certo dia, quando ele foi embora, vi q ele tinha deixado um envelope por cima da mesa.
Quando abri, tinha dinheiro dentro
Liguei imediatamente
Ele atendeu.
Pai, q dinheiro é esse.
— Para ajudar.
— Eu não preciso.
— aceita. Eu sei que não pediu.
— Então não faça.
Ele suspirou.
— Você sempre foi orgulhosa.
— E você sempre foi teimoso.
No meio da ligação Notei ele meio estranho
No fim, não devolvi
Meu pai voltou a nos visitar e para meu filho, era uma alegria só
E meu pai parecia descobrir uma alegria que eu nunca tinha visto nele.
Certa tarde, chegou com uma caixa.
— O que é isso? — perguntei.
— Um presente.
Meu filho correu até ele.
— É meu?
Meu pai sorriu.
— É.
Dentro havia um carrinho.
Meu filho ficou encantado.
— Obrigado, vovô!
Meu pai olhou para mim.
Eu apenas balancei a cabeça.
— Não precisa ficar trazendo coisa toda vez que vem.
— Eu sei.
— Então por que traz?
Ele olhou para o menino, que já estava brincando no chão.
— Porque eu perdi muita coisa.
Não respondi.
Ele também não explicou.
Talvez não precisasse
Então fiz uma pergunta que estava me incomodando
"Pai, naquela ligação que fiz pro senhor no outro dia, tive a impressão ouvir sua mulher brigando com o senhor "
"Aah, foi só impressão sua"
"O senhor vim me visitar, de alguma forma ta gerando briga com sua mulher?"
"Não, claro q não "
"Pai, eu lhe conheço, sei q quando passa a mão no bigode ta mentindo "
Ele rapidamente tira a mão do bigode
"Anda, conta logo, pq ela tava brigando com o senhor ?"
"É q ela tem ciúmes de vc"
"De mim?sério? Hahah como assim?
"Eu tou vindo te ve com cada vez mais frequência, falo muito sobre vc lá em casa e isso ta mexendo com ela
"Se o senhor quiser vim menos vezes eu vou entender
"Não, claro q n. Não vou me deixar levar por birra de mulher "
Balancei a cabeça.
Mas ele cumpriu com o q disse, continuou vindo.
E Com o passar das semanas, a presença dele começou a mudar a casa.
Era curioso.
Minha casa continuava exatamente a mesma.
O sofá velho.
A televisão pequena.
A mesa com uma das pernas ligeiramente torta.
Os brinquedos espalhados.
As contas sobre a geladeira.
Nada havia mudado.
Mas, quando meu pai estava ali, parecia que a casa ficava menos silenciosa.
Meu filho gostava de mostrar seus desenhos.
Meu pai fingia entender todas as regras dos jogos que o menino inventava.
Às vezes os dois ficavam na sala enquanto eu preparava o jantar.
Eu ouvia as vozes deles.
Uma criança.
Um homem.
E, no meio dos dois, uma sensação que eu não sabia explicar.
Eu não precisava mais fazer tudo sozinha naquele momento.
Era apenas uma presença.
Mas uma presença masculina dentro daquela casa.
E percebi que sentia falta disso.
Não era algo que eu dizia.
Nem para meu pai, nem para mim mesma.
Eu simplesmente percebia.
Quando ele ia embora, depois de passar algumas horas conosco, a casa parecia maior.
Mais vazia.
Às vezes eu permanecia alguns minutos na porta depois que ele saía.
Observava o carro desaparecer pela rua.
Então fechava a porta.
Meu filho voltava para o quarto.
A televisão continuava ligada.
E eu retomava as coisas de sempre.
Mas alguma coisa havia mudado.
Eu começara a esperar pelas visitas do meu pai.
E isso me assustava um pouco.
Porque, depois de tantos anos tentando provar que não precisava dele, eu começava, silenciosamente, a gostar de tê-lo por perto.