“Bolo de fubá”, ela disse, por fim.
“Fiz de manhã. Trouxe metade.”
“Obrigada, dona Cida.” Minha voz saiu de algum lugar que não era meu peito.
Quem era aquele homem?
“Ele é meu pai.”
A palavra caiu no chão da cozinha e ficou lá, sem que ninguém a chutasse para longe.
“Ah.” Ela arrastou o “ah” por três segundos inteiros.
“então é ele.” completou
Sim! Respondi
E o que ele queria?
"Sei lá, acho q alguma espécie de dor na consciência"
Ou saudades da filha!?
"A dona Cida, me poupe"
"Ja parou pra pensar q ele deve sentir sua falta ?"
Fiquei em silêncio
"E tenho certeza q vc tbm sente saudades dele. Eu acho q vc precisa dar um chance a ele. Aliás, uma chance pra você tbm."
Como assim dona Cida?
"Vc não acha q ta na hora de deixar o orgulho de lado?"
E foi assim q ela em seguida saiu dando as costas pra mim.
O dia continuou como se nada tivesse acontecido, porque é isso que os dias fazem.
Naquela noite, lavei a louça, cheirei o cabelo do Lucas depois do banho, deitei. E fiquei acordada até a madrugada, refazendo a conversa que tive com meu pai
Quando foi na quinta feira. Eu estava voltando da casa da dona Lúcia, uma idosa que eu cuidava e tirava mais um dinheiro.
Quando o vi de pé na calçada. Dessa vez não subiu no capô. Ficou esperando.
“Preciso falar uma coisa”, disse.
— Posso entrar?perguntou
Era uma pergunta simples.
Ainda assim, demorei para responder.
— Pode.
Afastei-me da porta.
Ele entrou.
olhou rapidamente para a sala, para o sofá, para alguns brinquedos espalhados pelo chão
— E o menino?
— Dormindo.
Ele assentiu.
"Ele fica sozinho enquanto vc trabalha ?"
"Não, uma amiga fica com ele as quintas até as cinco, é o tempo q eu chego do trabalho
— hum, entendi, Cresceu bastante, não?
— Cresceu.
Sentamos no sofá
— olha filha, eu não vi aqui pra discutir com vc.Não quero brigar com vc por causa do passado. O que ja foi, foi, então me desculpa por ter dito as coisas q eu disse na outra vez.
Pensei em dizer muitas coisas, mas a voz da dona Cida ecoava pela minha cabeça
"Eu não gostaria de admitir isso, mas o senhor sempre teve razão sobre ele, sobre jorge
Por falar nele, por onde esse cafajeste anda?
"Não sei, ele não da notícias há anos. E pra falar a verdade, melhor q seja assim"
Vc ta precisando de ajuda filha?
Não, ta tudo bem
"Tem certeza!?"
"Tenho. E Como tá sua outra família?
Ele me olhou por alguns segundos.
"Estão todos bem"
"Hum q bom. Pq o senhor demorou tanto pra aparecer?
"Não sei, tinha medo da sua reação, vc saiu de casa com tanta raiva de mim
"Eu estava msm"
Então quer dizer que passou?
Talvez..diminuído...
Ele riu. Eu tbm
— Eu sentia sua falta.ele disse
— Sentia?
Ele assentiu.
— Todos esses anos.
Então fui chegando perto dele,
"Eu tbm pai"
estiquei os braços e passei por entre o pescoço dele.
Senti os braços dele fazer força contra as minhas costas
Meu seios fizeram força sobre o peito dele, então um beijo , um selinho estalou na minha cabeça.
Um abraço forte, carinhoso, caloroso me fizeram voltar no tempo.
Me senti aquela menina jovem, sem preocupações na vida.
Com Alguém pra me proteger
Foi quando ouvimos uma porta se abrir.
Olhei para o corredor.
Meu filho apareceu sonolento, segurando o
próprio cobertor.
— Mamãe?
Meu coração apertou.
Ele olhou para mim.Depois para meu pai
— Quem é ele?
Meu pai abaixou a cabeça. Olhou para o neto
Eu não consegui responder imediatamente.
— É seu avô.
Meu filho olhou novamente para ele.
Meu pai tentou sorrir.
— Oi.
O menino não respondeu.
Apenas se aproximou de mim e segurou minha mão.
Foi nesse momento que meu pai pegou as chaves sobre a mesa.
— Acho melhor eu ir.
Caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou para o menino uma última vez.
— Desculpa ter acordado você.
Meu filho continuou em silêncio.
A porta se fechou.
E a casa ficou quieta outra vez.
